Eleição argentina é ‘referendo’ para casal Kirchner

Casal Kirchner durante comício
Image caption Cristina sucedeu o marido, Néstor, na Presidência em 2007

As eleições legislativas deste domingo na Argentina devem servir não somente para mudar a composição do Congresso do país, mas também funcionarão como um referendo para o casal que vem dominando a política argentina nos últimos seis anos.

Cristina Fernández, que sucedeu o marido, Néstor Kirchner, na Presidência em dezembro de 2007, viu sua popularidade cair nos últimos tempos em meio ao agravamento dos problemas econômicos do país.

Ela antecipou as eleições, originalmente programadas para outubro, argumentando que isso permitiria ao país se unir então para enfrentar a crise econômica global.

Mas os críticos dizem que a antecipação das eleições foi um plano para tentar uma vitória eleitoral antes de que os problemas fiquem mais claros e abalem a popularidade do governo.

Recuperação

“Esta não é uma eleição comum”, afirmou durante um comício o ex-presidente Néstor Kirchner, que preside o governista Partido Justicialista (peronista).

“A Argentina se recuperou. Fomos capazes de construir casas, criar crédito imobiliário, renovar hospitais. Agora há uma boa administração e nós podemos nos sustentar em uma crise econômica”, afirmou Kirchner, enumerando à platéia os supostos avanços desde que ele chegou à Presidência, em 2003.

O próprio Kirchner enfrenta as eleições como cabeça de chapa de uma ala do peronismo na Província de Buenos Aires e tem como objetivo garantir ao governo a maioria no Legislativo.

Quando Kirchner chegou ao poder, há seis anos, a Argentina estava à bordo do colapso econômico e político, como resultado de um grande calote na dívida pública.

Mas a demanda mundial pelos grãos produzidos pela Argentina ajudou a garantir seis anos de crescimento econômico na casa dos 8% ao ano – um crescimento do qual Kirchner e sua mulher se beneficiaram.

Prognósticos

Mas o cenário e os prognósticos políticos e econômicos são bem diferentes hoje.

As pesquisas de opinião indicam que o peronismo perderá sua maioria na Câmara dos Deputados e, possivelmente, também no Senado.

“Se o governo não for capaz de manter sua maioria em ambas as casas, a Argentina estará em um caos político”, prevê Aldo Abram, diretor do Centro para Investigação dos Mercados e das Instituições Argentinas.

“Isso será visto como um alto risco e criará mais incertezas. Isso poderá estender a recessão até 2011, e a fuga de capitais da Argentina continuará”, acrescenta Abram.

As eleições ocorrem em meio não somente aos crescentes problemas econômicos, mas também em meio a questionamentos sobre a competência do governo.

Dados contestados

Os dados oficiais, contestados, indicam uma inflação anual na casa dos 5%, mas analistas privados dizem que a taxa real de inflação seria de ao menos 15%.

O consumo popular caiu, enquanto as taxas de crime e de pobreza têm se tornado problemas cada vez mais visíveis.

Muitos argentinos têm trocado suas economias em dólares para enviar a contas no exterior, receosos sobre a habilidade do governo de lidar com a crise.

Uma disputa entre o casal Kirchner e o poderoso setor agropecuário do país sobre impostos também serviu para aumentar a preocupação dos eleitores.

No ano passado, Cristina Fernández nacionalizou o sistema privado de pensões, em uma atitude que deixou horrorizados os investidores estrangeiros.

Visão otimista

Mas alguns analistas têm uma interpretação mais otimista sobre o futuro pós-eleições.

“Há muita preocupação na Argentina sobre a situação política, como pode ser visto pela fuga de capitais”, diz o economista Dante Sica, ex-ministro da Indústria.

“Mas após as eleições, essa incerteza passará e haverá uma espécie de ‘descompressão’ quando as pessoas absorverem quais são as novas alianças que foram feitas no Congresso. Se o governo implementar algumas medidas econômicas pendentes, a confiança retornará”, diz.

Muito dependerá da habilidade do governo de produzir novos pactos políticos. As pesquisas de opinião indicam que o voto no Congresso estará fragmentado mesmo dentro do próprio partido governista.

Mas Sica sugere que as discussões pós-eleição poderiam criar um ambiente político mais saudável, com um governo que estava acostumado a não enfrentar nenhuma resistência finalmente forçado a discutir mais suas propostas no Congresso.

Além disso, na visão de Sica, a proximidade da eleição presidencial de 2011 também deverá ter um efeito reanimador. “O partido governista fará todo o possível para manter o poder”, disse.

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