Redução de estoques impulsiona preços recordes do açúcar

sugar cane havest in india (DAVID R. FRAZIER / SCIENCE PHOTO LIBRARY)
Image caption Estiagem deverá provocar segunda quebra de safra consecutiva na Índia

Os preços do açúcar vêm batendo recordes desde a última semana, impulsionados pelo temor de redução nos estoques mundiais.

Na manhã desta terça-feira, o contrato com vencimento em outubro na bolsa ICE Futures US, de Nova York, era cotado a 21,65 centavos de dólar por libra-peso (equivalente a 453 gramas).

Na segunda-feira, chegou a 22,44 centavos de dólar, antes de fechar em 22 centavos de dólar - maior cotação em 28 anos.

Na semana passada, a commodity já havia alcançado preços recordes, em uma escalada iniciada ainda no final do ano passado, mas que ganhou força nas duas últimas semanas. Nos últimos seis meses, o aumento foi de cerca de 80%.

Segundo analistas consultados pela BBC Brasil, o principal fator a impulsionar a cotação do produto é a perspectiva de uma segunda quebra de safra consecutiva na Índia, segundo maior produtor mundial de açúcar (depois do Brasil), cuja colheita, a partir de setembro, deverá sofrer o impacto da estiagem.

Depois de chegar a produzir 28 milhões de toneladas, a Índia sofreu uma quebra de cerca de 50% na safra do ano passado.

Para este ano, alguns analistas já preveem que a estiagem poderá comprometer a estimativa de 19 milhões de toneladas. A produção será insuficiente para abastecer uma demanda interna de cerca de 22 milhões de toneladas.

"Há três ou quatro anos, a Índia estava competindo com o Brasil de forma agressiva. Agora, terá de importar 4 milhões ou 5 milhões de toneladas de açúcar", diz o analista Miguel Biegai Jr., da Safras & Mercado. "Além de sair de cena um exportador, entra um grande importador de peso."

A produção mundial de açúcar é estimada em torno de 155 milhões de toneladas, ante um consumo de mais de 160 milhões de toneladas - o que provoca um déficit nos estoques globais.

Brasil

A quebra de safra na Índia não é o único fator a elevar os preços do açúcar. Também no Brasil, maior produtor e exportador mundial, o clima teve impacto na lavoura.

O Centro-Sul, principal região produtora, sofreu com excesso de chuvas e deverá produzir 31 milhões de toneladas. A previsão é de uma safra de cerca de 36 milhões de toneladas no país.

Com essa valorização mundial do produto, as usinas brasileiras, que nos últimos anos viveram a euforia com a produção de etanol, buscam direcionar sua produção para o açúcar.

Segundo Biegai Jr, cerca de 60% da colheita de cana no ano passado era destinada à produção de etanol, e os 40% restantes transformados em açúcar.

Nesta safra, com a alta nos preços, a previsão do analista é de que essa divisão seja em torno de 55% de etanol e 45% de açúcar.

Etanol

"As usinas brasileiras estão trabalhando no limite de sua capacidade instalada para produzir todo o açúcar que puderem", diz o diretor técnico da UNICA.

Muitas usinas são exclusivamente destilarias, ou seja, só produzem etanol. Caso quisessem produzir ainda mais açúcar, seriam necessários investimentos em novas plantas, o que, segundo analistas, não deve ocorrer.

"As usinas mistas, que podem selecionar, vão tentar produzir o máximo de açúcar", diz o analista Bruno Boszczowski, da Agra FNP.

No momento atual, em que os preços do etanol estão em baixa, a alta do açúcar vem ajudando a equilibrar o capital de giro das empresas.

"O açúcar remunera 30% a mais do que o etanol e está salvando as usinas de um ano ruim", diz Biegai Jr.

No primeiro semestre, as exportações brasileiras de açúcar chegaram a 10,4 milhões de toneladas, um crescimento de 37% em relação ao mesmo período do ano passado, segundo o diretor técnico da UNICA (União da Indústria de Cana-de-Açúcar), Antonio de Padua Rodrigues. Em termos de receita global, o aumento foi de 53%.

Para alguns analistas, o mercado mundial de açúcar deve se manter em alta ao longo dos próximos meses. "Acredito que vá se manter remunerador por boa parte do ano que vem", diz Boszczowski.

Outros, no entanto, creditam a alta atual, em parte, a um movimento especulativo. "Diversos compradores que estavam tranquilos entraram comprando no mercado futuro com medo de alta maior", diz Biegai Jr. "(A alta) é meio exagerada na minha opinião."

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