De Faulks, Bond e fatwas

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Sebastian Faulks é um popular escritor britânico. Tão popular que é capaz de ter passado pela festa literária de Paraty e abafado. Vende bem aqui também. Fez e faz ainda jornalismo, tem programa de rádio na BBC, vive feliz com sua mulher e três filhos. Seus romances já deram em filmes razoáveis que, por sua vez, resultaram em prêmios. Dolores Gray e Birdsong são dois exemplos.

Coube-lhe, em 2007, a honra de dar prosseguimento à obra de Ian Fleming e seus livros sobre James Bond, nosso querido 007. Não é o primeiro autor da liga dos campeões a tentar alvejar algo ou alguém com sua licença para matar. Kingsley Amis, pai de Martin, foi outro. O livro de Bond chamou-se Devil May Care (O Diabo que se Dane, ou ainda, Estou Pouco Ligando em libérrima traduções). Saiu em 2008, para comemorar o que seria o 100º aniversário de Ian Fleming. E ficou por aí mesmo.

Não é por nada, não, mas nunca consegui acabar um livro do bom Faulks. Talvez porque eu implique com sua barba e suas partículas apassivadoras. Problema meu.

Sebastian, no entanto, parece que acreditou na licença para matar. Ou ao menos jogar umas pedrinhas nuns parceiros perigosos. Ele vem se queixando, em letra de forma e entrevista radiofônica, que – e aqui eu tomo liberdade de interpretação – o Corão não está com nada. Vá lá que seja. Para que eu não pegue uma beirada num fatwa da vida, cito-o, ao Sebastian, literalmente: queixa-se de deficiências literárias e criativas do livro sagrado dos muçulmanos. Chama-o de “unidimensional” e que perde feio para as “incríveis histórias” (suas palavras) do Velho Testamento.

Raciocinemos. O Corão não é para ser lido na poltrona da sala, na cama ou à beira da piscina. Não foi escrito em inglês, consequentemente, assim como o Dolores Gray, do próprio Faulks, perde um pouco na tradução. Faulks, em vez dessa mania de ir e vir de Paraty, deveria requentar seu domínio da língua árabe clássica. Aí sim, talvez eu o levasse mais a sério. Todos nós, pessoas cultas e de fino trato, sabemos que as narrativas do Corão são em sua maioria (maioria apenas, só, mais nada) baseadas em histórias do Velho Testamento.

Quer dizer, se Faulks acha o Corão meio sem sal, também tem que reclamar da falta de molho da Bíblia.

Lembro, para encerrar, de que numa de suas primeiras versões Alá recomendava a Maomé que os muçulmanos deveriam rezar pelos menos 50 vezes por dia. Vira pra cá, vira pra lá e Maomé, com muito jeitinho, ponderou que 50 era muito. Alá pensou, pensou (assim diz a lenda) e, em sua voz tonitruante, disse em árabe castiço que vá lá que seja, fica sendo 5 orações por dia. E assim é até hoje.

O tempo economizado pelo sábio profeta para gáudio de todos nós pode agora ser dedicado à leitura dos livros de Sebastian Faulks, conforme já foi sugerido por mais de um engraçadinho.

De minha parte, peço que virem pra lá qualquer sombra de fatwa em minha direção, combinado?

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