Voo AF 447: sindicato acusa investigadores de minimizar falhas nos sensores

Asa do avião
Image caption Buscas por caixa-preta devem prosseguir

O Sindicato dos Pilotos da Air France (Spaf) acusa os investigadores do acidente do voo AF 447 de minimizar as falhas nos sensores de velocidade do avião e tentar atribuir aos pilotos uma parte da responsabilidade na queda do avião no dia 31 de maio, que matou 228 pessoas.

Gérard Arnoux, presidente do Spaf, disse à BBC Brasil que apenas no ano passado ocorreram nove incidentes graves com sensores de velocidade de aviões Airbus da Air France.

Eles não resultaram em acidentes fatais, mas as autoridades, antes do acidente com o voo 447, não tomaram nenhuma providência nem impuseram modificações no equipamento, afirmou.

“Nos últimos anos, ocorreram inúmeros casos de falhas nos sensores de velocidade de aviões da Airbus durante voos em alta altitude. As autoridades competentes tinham conhecimento do problema e deveriam ter agido antes”, disse Arnoux.

Paul-Louis Arslanian, diretor do BEA, órgão francês que investiga as causas da catástrofe do voo 447 da Air France, havia declarado na segunda-feira “que algumas perturbações no voo, decorrentes da perda de velocidade, talvez não tenham sido suficientemente levadas em conta durante a formação e o treinamento dos pilotos”.

“Trata-se de minimizar a responsabilidade de todos que não fizeram o que deveriam ter feito. O BEA não fez nenhuma investigação, não ouviu nenhum piloto sobre os incidentes no ano passado com aviões A330 que sofreram panes nas indicações de velocidade”, diz Arnoux.

Ele se diz “escandalizado pela negligência das autoridades, que conduziu a essa catástrofe”. O BEA é ligado ao Ministério dos Transportes da França.

Greve

“Condições meteorológicas difíceis, associadas à perda dos dados de velocidade fornecidos pelos sensores, diminuem a capacidade de comando do avião. É o chamado comando de voo degradado. Nesse momento, a tripulação perde o controle”, diz ele.

O Spaf, juntamente com outros sindicatos de pilotos da Air France, havia ameaçado, em julho, fazer greve caso a direção da companhia aérea não reforçasse sua política de segurança.

Entre as reivindicações, os pilotos pediam um treinamento específico, com simulador, para constatar na prática os problemas enfrentados pela tripulação do voo 447, decorrentes da perda dos dados de velocidade da aeronave.

Esse treinamento começará a ser feito a partir deste mês.

Segundo o presidente do Spaf, a lista de procedimentos de emergência da Air France, a chamada “check-list”, não responde à situação de perda da velocidade em alta altitude. “Só há procedimentos em relação à perda de velocidade em baixa altitude”.

Ele diz ainda que a certificação dos sensores de velocidade do fabricante Thalès, utilizados pela Airbus, data de 1947, “quando os aviões não ultrapassavam a altitude de 20 mil pés. Hoje, eles voam entre 30 mil e 40 mil pés”, afirma Arnoux.

No final de julho, a Agência Europeia de Segurança da Aviação (AESA) recomendou que pelo menos dois dos três sensores de velocidade dos aviões sejam da marca americana Goodrich.

Martine Delbono, porta-voz do BEA, disse à BBC Brasil que “as investigações sobre as causas do acidente com o voo 447 não têm o objetivo de encontrar um culpado, mas sim determinar a sequência de eventos que causaram a catástrofe para melhorar as regras de segurança da aviação”.

Segundo o BEA, problemas nos sensores de velocidade do Airbus A330 da Air France “são um dos elementos, mas não a causa do acidente”.

“Quando fazemos recomendações em relação à segurança, é preciso justificá-las. Ainda não determinamos as causas do acidente”, afirma.

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