Brasil não quer 'encurralar o Irã', diz assessor do Planalto

O assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia/Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr (arquivo)
Image caption Para Garcia, isolar o Irã pode ter consequencias negativas

O assessor especial da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, disse nesta sexta-feira que o Brasil não quer “encurralar o Irã” e que medidas que levem ao isolamento do país terão efeito contrário ao esperado no que diz respeito ao uso de energia nuclear pelos iranianos.

Os comentários do assessor do governo foram feitos horas após a revelação de que o Irã construiu uma segunda usina nuclear.

A notícia despertou críticas do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, que disse que “o Irã está rompendo regras que é obrigado a seguir” e está “ameaçando a estabilidade e a segurança da região e do mundo”.

Leia mais na BBC Brasil: EUA e europeus ameaçam Irã com novas sanções por 2ª usina “O que eu quero saber é o seguinte: Nós queremos encurralar o Irã ou nós queremos mudar a política nuclear do Irã? A política do Brasil é a de mudar a política nuclear do Irã e garantir firmemente que o Irã não terá uma bomba nuclear”, afirmou Garcia.

“A política de encurralamento, nós sabemos onde vai dar, dá no Paquistão e dá na Coreia do Norte. Se quisermos ter um terceiro país nessas condições, muito bem. Usem essa política.”

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Para Marco Aurélio Garcia, mesmo após a revelação, o Brasil deve seguir buscando negociar com o Irã e mantém seus planos de receber a visita do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, marcada para o próximo dia 23 de novembro.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, por sua vez, deve visitar o Irã no começo do ano que vem, em uma data ainda a ser definida.

A construção da usina iraniana foi tema de uma rápida conversa entre Lula e o presidente Obama na manhã desta sexta-feira, pouco antes de uma das reuniões de trabalho dos chefes de Estado e de governo que participam da cúpula do G20.

De acordo com o embaixador do Brasil em Washington, Antônio Patriota, Obama, ciente de que Lula havia se encontrado com Ahmadinejad em Nova York, falou sobre a revelação da existência da usina e a preocupação expressa por ele, o premiê britânico, Gordon Brown, e o presidente francês, Nicolas Sarkozy.

“Em essência, ele disse que acha bom que o Brasil converse com o Irã. Ele concordou com a tese do presidente Lula de que não é produtivo isolar o Irã e que (é melhor que) os iranianos falem ao menos com um punhado de países.”

Marco Aurélio Garcia disse que o governo espera analisar as informações da Agência Internacional de Energia Atômica sobre a segunda usina nuclear iraniana.

“E se ela se confirmar nós vamos expressar ao governo iraniano o mesmo sentimento que os outros países estão expressando. A posição do Brasil no que diz respeito ao uso de energia nuclear pelo Irã não mudou. Desde o começo, nós condenamos essa posição, de que, qualquer país, não apenas o Irã, pudesse construir uma bomba atômica.”

O assessor da Presidência afirmou que caso se comprove que o material nuclear produzido na usina tinha fins militares, “nós faremos sentir o nosso protesto, junto ao governo iraniano”.