Zelaya diz que embaixada foi atacada com gás; polícia nega

Guarda municipal distribui comida para tropas em frente à embaixada do Brasil em Tegucigalpa
Image caption Movimentação das forças de segurança em frente a embaixada aumentou

O presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, afirmou nesta sexta-feira que a embaixada brasileira em Tegucigalpa, onde está abrigado, foi alvo de bombas de gás lacrimogêneo lançadas pelas forças de segurança do país.

"Há muitos feridos lá dentro (da embaixada), pessoas sangrando", disse o médico de Zelaya, Marco Antonio Rosas, que foi impedido de furar o bloqueio policial e entrar na representação diplomática brasileira.

O próprio Zelaya relatou o ataque à imprensa local e sua esposa, Xiomara Castro, repetiu a alegação em entrevista a uma rádio.

Um porta-voz da polícia, no entanto, negou o ataque com bombas de gás lacrimogêneo e disse que a situação em frente à embaixada permanece na normalidade. Apesar disso, a movimentação das forças de segurança no local aumentou nas últimas horas.

Em um comunicado, o governo interino de Honduras, liderado por Roberto Micheletti, diz que "é totalmente falso que membros da Polícia Nacional tenham colocado uma equipe especial para disparar um líquido que provoque mal-estar às pessoas que estão no interior da embaixada do Brasil".

De acordo com a Agência Brasil, funcionários da embaixada brasileira que permanecem no local afirmaram que "há cheiro de gás e pessoas passando mal" e "expelindo sangue pelo nariz e pela urina" dentro do prédio.

Desde a manhã desta sexta-feira, a região próxima à embaixada brasileira em Tegucigalpa passou a ser ocupada por um número maior de tropas de choque, um novo bloqueio foi formado na área e caminhões com canhões de água chegaram ao local.

Representantes de organizações de direitos humanos que tinham acesso à área da embaixada também estão sendo impedidos de contactar as pessoas dentro do prédio.

Durante o dia, um grupo de manifestantes pró-Zelaya se concentrou na Universidade de Tegucigalpa e, pela primeira vez, conseguiu se aproximar do cerco que impede o acesso à embaixada.

Conselho de Segurança

Em Nova York, durante uma reunião de emergência pedida pelo governo brasileiro, o Conselho de Segurança da ONU condenou nesta sexta-feira as "ações de intimidação" contra a embaixada do Brasil em Honduras.

O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, relatou aos membros do Conselho de Segurança a situação da embaixada e pediu uma ação para acabar com o cerco à representação brasileira. "A embaixada está virtualmente sitiada", disse Amorim.

O prédio chegou a ter o fornecimento de água e luz cortado, e dezenas de pessoas abrigadas no local dizem que há pouca comida.

Manuel Zelaya foi deposto e expulso de Honduras em 28 de junho. Na última segunda-feira, ele retornou ao país sem a autorização do governo interino, que cobra a sua prisão, e se refugiou na embaixada brasileira.

O governo interino, no entanto, não é reconhecido pela comunidade internacional. O Brasil, por exemplo, ainda considera Zelaya o presidente legítimo de Honduras.

Em uma entrevista em São Paulo, a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, disse nesta sexta-feira que a volta de Zelaya ao poder é inegociável e defendeu o abrigo ao presidente deposto, afirmando que brasileiros se beneficiaram do instrumento no passado, quando países da América Latina "sofreram" com ditaduras e com a quebra do estado de direito.

A ministra admitiu, porém, que o poder de ação do Brasil na crise é limitado. "Nós não controlamos o tempo dessa crise política com a qual não temos a menor ligação", disse Dilma.

Diálogo

Na quinta-feira, ogoverno interino de Honduras anunciou que aceita receber uma missão integrada pelo presidente da Costa Rica, Oscar Arias, e pelo vice-presidente do Panamá, Juan Carlos Varela, para negociar uma solução para a crise. Disse também que, por esse motivo, decidiu adiar, ainda sem previsão de data, uma reunião com uma missão da Organização dos Estados Americanos (OEA).

O presidente da Costa Rica foi o mediador do chamado Acordo de San José, uma tentativa fracassada de resolver a crise em Honduras no início de julho.

Também na quinta-feira, Zelaya afirmou que “o diálogo com o governo interino já começou”. No entanto, nesta sexta-feira, o presidente deposto convocou seus simpatizantes a manter os protestos e pedir seu retorno ao poder.

A Espanha também anunciou que, atendendo a um pedido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, irá tentar intermediar a crise política em Honduras.

Em nota à imprensa, o ministro espanhol de Relações Exteriore, Miguel Ángel Moratinos, afirmou que a Espanha "está mantendo consultas informais com as autoridades interinas (de Honduras) e com personalidades da vida política e social do país para abrir um diálogo".

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