Guiné proíbe reuniões 'subersivas' e anuncia luto nacional

Manifestantes na Guiné mostram cartaz com frase 'Abaixo o Exército no poder' (28 de setembro)
Image caption Grupos de defesa dos direitos humanos afirmam que 157 morreram em manifestação

O governo militar da Guiné, no oeste da África, proibiu o que chamou de "reuniões subversivas" e anunciou dois dias de luto nacional depois que soldados do Exército dispararam contra uma manifestação da oposição matando mais de 150 pessoas.

Em um pronunciamento transmitido pela televisão, o líder da junta militar que governa o país, capitão Moussa Dadis Camara, afirmou que "agitadores" serão "punidos com severidade".

"Qualquer reunião de qualquer lado e natureza e com caráter subversivo está proibida. Peço a todas as autoridades religiosas, líderes de opinião, líderes de partidos políticos, organizações da sociedade civil e a imprensa que evitem declarações e atividades que perturbem a ordem pública", disse.

"Agitadores e seus aliados serão punidos severamente", acrescentou.

Camara afirmou que o país ficará de luto na quinta e sexta-feira, as bandeiras serão hasteadas a meio mastro e as estações de rádio tocarão apenas músicas solenes.

Na segunda-feira, na capital, Conacri, pelo menos 157 pessoas teriam sido mortas quando os soldados dispararam contra uma manifestação contra o governo, que reuniu mais de 50 mil pessoas.

A Organização Guineana para Defesa dos Direitos Humanos afirmou na terça-feira que, além dos 157 mortos, mais de 1,2 mil pessoas teriam ficado feridas. As autoridades da Guiné só admitiram, até agora, as mortes de 57 pessoas.

A manifestação foi convocada devido a boatos de que Camara, que assumiu o poder após a morte do presidente Lansana Conté, em dezembro, pretenderia concorrer à Presidência nas próximas eleições, em janeiro.

Investigação

Camara também prometeu investigar a violência ocorrida durante a manifestação e responsabilizou "elementos incontroláveis" no Exército pelas mortes.

De acordo com o correspondente da BBC em Conacri Alhassan Sillah, Camara por um lado prometeu apoio aos feridos na manifestação, mas também acusou políticos da oposição de incitar a violência.

Image caption Camara prometeu democracia quando assumiu poder em 2008

No entanto, testemunhas relataram que os soldados estupraram mulheres nas ruas e atacaram manifestantes com golpes de baioneta.

Um morador de Conacri disse à BBC que ouviu disparos nas ruas durante a noite de terça-feira. Grupos de defesa dos direitos humanos informaram que os abusos de civis por parte dos soldados também estão continuando.

ONU

As mortes na Guiné foram condenadas por várias organizações internacionais, como a União Africana e a ONU, e por governos de outros países.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, pediu que as autoridades da Guiné ajam com o máximo de moderação. E a França afirmou que vai suspender a cooperação militar com sua antiga colônia.

Há informações de que o bloco regional Ecowas (Comunidade Econômica dos Estados do Oeste Africano, na sigla em inglês) está estudando a aplicação de sanções contra o regime militar.

No entanto, segundo analistas, as organizações internacionais têm pouca influência no país, pois a Guiné é rica em recursos e conta com grandes investimentos de mineradoras internacionais.

O analista de assuntos africanos Paul Melly disse à BBC que o ex-presidente Lansana Conté sobreviveu a anos de suspensão da ajuda da União Europeia e não cedeu a exigências por reformas políticas.

A Guiné, um dos principais exportadores de bauxita do mundo, mas cuja população vive em sua maioria com menos de US$ 1 por dia, foi governada com mão de ferro por Lansana Conté por 24 anos.

Logo após a morte de Conté, em dezembro de 2008, uma junta militar liderada pelo então desconhecido capitão Moussa Dadis Camara tomou o poder.

Soldados e tanques foram enviados para as ruas do país, para estabelecer bloqueios. Não houve violência na ocasião.

A junta prometeu realizar eleições livres depois de um período de transição de dois anos, no final de 2010.

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