Junta militar da Guiné pede governo de união nacional

Manifestantes na Guiné mostram cartaz com frase 'Abaixo o Exército no poder' (28 de setembro)
Image caption Grupos de defesa dos direitos humanos afirmam que 157 morreram

O governo militar da Guiné, no oeste da África, sugeriu, nesta quarta-feira, a formação de um governo de união nacional depois da condenação da comunidade internacional sobre a repressão contra manifestantes da oposição que matou mais de 150 pessoas na segunda-feira.

“A junta pede a formação de um governo de integração nacional com membros de diferentes partidos políticos que se encarreguem da transição”, disse o porta-voz da junta, Mandjou Deoubate em uma declaração transmitida na TV estatal.

Os militares pediram ainda que um líder africano seja indicado como mediador entre as duas partes e que uma comissão seja formada com o apoio da Organização das Nações Unidas (ONU) para investigar as mortes ocorridas durante a violenta repressão aos protestos.

Na segunda-feira, na capital, Conacri, pelo menos 157 pessoas teriam sido mortas quando os soldados dispararam contra manifestantes que protestavam contra o governo.

A manifestação foi convocada para protestar contra possíveis planos do atual líder, Moussa Dadis Camara, de concorrer nas eleições presidenciais do ano que vem, rompendo assim uma promessa de não ser candidato.

O capitão Dadis Camara tomou o poder na Guiné no ano passado depois da morte do presidente Lansana Conté. A junta prometeu realizar eleições livres depois de um período de transição de dois anos, no final de 2010. Na ocasião, Camara afirmou que não seria candidato.

A União Africana estabeleceu um prazo até meados de outubro para que Camara confirme que não concorrerá às eleições, marcadas para 31 de janeiro.

Ainda nesta quarta-feira, o governo militar proibiu o que chamou de “reuniões subversivas” e anunciou dois dias de luto nacional.

"Agitadores e seus aliados serão punidos severamente", afirmou Camara.

Image caption Camara prometeu democracia quando assumiu poder em 2008

Investigação

De acordo com o correspondente da BBC em Conacri Alhassan Sillah, Camara por um lado prometeu apoio aos feridos na manifestação, mas também acusou políticos da oposição de incitar a violência.

No entanto, testemunhas relataram que os soldados estupraram mulheres nas ruas e atacaram manifestantes com golpes de baioneta.

Um morador de Conacri disse à BBC que ouviu disparos nas ruas durante a noite de terça-feira. Grupos de defesa dos direitos humanos informaram que os abusos de civis por parte dos soldados também estão continuando.

ONU

As mortes na Guiné foram condenadas por várias organizações internacionais, como a União Africana e a ONU, e por governos de outros países.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, pediu que as autoridades da Guiné ajam com o máximo de moderação. E a França afirmou que vai suspender a cooperação militar com sua antiga colônia.

Há informações de que o bloco regional Ecowas (Comunidade Econômica dos Estados do Oeste Africano, na sigla em inglês) está estudando a aplicação de sanções contra o regime militar.

No entanto, segundo analistas, as organizações internacionais têm pouca influência no país, pois a Guiné é rica em recursos e conta com grandes investimentos de mineradoras internacionais.

O analista de assuntos africanos Paul Melly disse à BBC que o ex-presidente Lansana Conté sobreviveu a anos de suspensão da ajuda da União Europeia e não cedeu a exigências por reformas políticas.

A Guiné é um dos principais exportadores de bauxita do mundo, mas a população do país vive em sua maioria com menos de US$ 1 por dia.

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