Um em cada cinco poderá estar sem emprego na Espanha em 2010

Desempregados na Espanha
Image caption A taxa de desemprego chegou aos 18,9%

A economia espanhola não enxerga a luz no fim do túnel. Depois das recentes previsões de órgãos internacionais que preveem o país como o último da zona euro a sair da crise, o índice de desemprego divulgado pelo governo espanhol nesta sexta-feira chega aos 18,9%.

Se as estimativas forem confirmadas, um entre cinco trabalhadores estará sem emprego em 2010 na Espanha, e a velocidade da queda só deverá diminuir em 2010.

Tanto o relatório da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) quando o do Fundo Monetário Internacional (FMI) estimam que a Espanha será o único país da região do euro que continuará em recessão ao fim de 2009 e não se recuperará em 2010.

A previsão sugere ainda que o pior ainda está por vir: a taxa de desemprego deverá ser a mais alta entre os 30 países mais desenvolvidos do mundo.

O índice de desemprego se aproxima aos números do fim da Segunda Guerra Mundial. As previsões oficiais indicam que a taxa espanhola duplicará a média dos países da OCDE, que estará em 9,9%.

"Não é uma recessão mais profunda do que a média dos países europeus, mas sim mais longa", disse o Comissário de Economia da União Europeia, o espanhol Joaquim Almunia, na apresentação do relatório continental que deixa a Espanha abaixo da média também no que diz respeito à recuperação do PIB.

Desemprego e dívidas

O último informe do FMI destaca a Espanha como a única das 15 maiores economias mundiais cujo crescimento, desemprego e PIB continuarão em números vermelhos no ano que vem.

As previsões coincidem com os recentes cálculos da agência de classificação de risco Standard & Poors.

O informe da S&P estima queda de 0,6% do PIB espanhol em 2010, enquanto os países vizinhos devem entrar o ano com números positivos: a Grã-Bretanha com 0,9%, Alemanha, 0,8% e França, 0,8%.

Os analistas também estão de acordo sobre as razões da crise espanhola. O desemprego se tornou um calcanhar de Aquiles para o governo do socialista Rodriguez Zapatero. As famílias estão endividadas, o consumo interno afundou e o país perdeu competitividade.

"Outros países tem bases sólidas para a recuperação. Veja só os Estados Unidos, que foram o epicentro da crise: mexeram na política fiscal, baixaram as taxas de juros... Ou o Brasil que concentrou os esforços no mercado interno e se protegeu do vendaval", disse à BBC Brasil o catedrático em economia da Universidade de Barcelona e Professor do Instituto de Empresa, Rafael Pampillón.

"O modelo econômico espanhol se baseou nos serviços. Em um ano, aqui foram construídas mais de 800 mil casas, mais do que Alemanha, França e Grã-Bretanha juntas. Com a quebra, o emprego afundou junto com a crise. Neste momento, não se salva nenhum dos setores econômicos", completou o catedrático.

Os bons tempos da liderança do crescimento europeu acabaram. A Espanha de 2009 está longe da que foi nos anos anteriores. Entre 2004 e 2007, o país superou a média do PIB da zona do euro, com índices três vezes acima dos de potências como França e Alemanha.

Em 2005, enquanto outros países da zona do euro cresciam 1,3%, a Espanha fechava o ano com 3,4%. Em 2006, o PIB alcançou os 3,9% (2.6% na zona euro), 3,8% em 2007 (2,7% euro) até o início da recessão em 2008, quando o índice caiu a 1.2% (1,5% euro).

Peso

O governo reconhece a dificuldade para sair da crise do desemprego. Segundo o Ministério do Interior, há mais de um milhão de famílias onde todos os membros estão desempregados.

"É verdade que o desemprego se tornou um peso. Mas também é bom destacar que a OCDE elogiou os esforços do governo espanhol para combater o problema. O relatório afirma que nosso seguro desemprego é o melhor da União Europeia e que o índice seria mais grave sem as medidas aplicadas nesta crise", afirmou à BBC Brasil uma assessora da Ministra da Fazenda, Elena Salgado, substituta do anterior ministro que pediu demissão.

Os analistas acreditam que a saída é mudar o rumo da economia nacional, opção também recomendada pela OCDE.

"O que a Espanha precisa é de outros motores de crescimento. Enquanto nos mantivermos com essa elevada dependência dos setores da construção e turismo não teremos peso. Sem competitividade vamos acabar sempre no fim da fila", disse à BBC Brasil o diretor de análise e gestão da agência Inversis.

Os economistas afirmam que a bolha da construção civil explodiu. Entre 1995 e 2007 o setor empregou 20,5 milhões de trabalhadores. "Um crescimento exagerado! Nenhum país em porcentagem gerou tanto emprego em tão pouco tempo", completou o professor Pampillón.

Uma oferta tão significativa colocou a Espanha como segundo maior receptor de imigrantes no mundo em 2006, atrás dos Estados Unidos, segundo estatísticas da OCDE.

"Os imigrantes chegaram com a construção e com ela vão ao desemprego. Entre 1994 e 2006 entravam em média meio milhão de estrangeiros por ano que encontravam trabalho e agora estão desprotegidos", afirmou à BBC Brasil o catedrático em Sociologia da Universidade Complutense de Madri, Lorenzo Cachón.

"Não é só uma questão econômica, mas humanitária porque a porcentagem de imigrantes desempregados quase triplica a da população espanhola sem trabalho. Os mais jovens, estrangeiros e espanhóis com menor formação são 90% dos atingidos pela crise."

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