Monumento à desigualdade

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

De vez em quando, vindo para o trabalho ou voltando para casa, nos arredores do metrô, eu vejo um pobre. Os pobres são fáceis de se reconhecer. Vestem-se mal, quando se vestem, suas roupas são uns trapos, e muitos deles se aproximam de nós, remediados, e pedem uma ajudinha para comer qualquer coisa.

Estou me referindo aos pobres mesmo. Aqueles pobres de doer. Há os outros pobres, aqueles que moram mal, falam um inglês esfarrapado e fazem questão de ter pregados na parede, em pleno voo, aqueles três patinhos de cerâmica, cada um deles em um plano diferente.

Esses são motivos de chalaça entre nós, remediados, ricos ou muito ricos. São eles protagonistas de várias “comediotas” de meia hora na televisão e de várias piadas de mau gosto mas muito engraçadas. Esse tipo de pobre não leva muita noção de sua pobreza, se orgulha de sua condição e, tendo filhos, querem uma vida melhorzinha para eles. Essas manias todas que os pobres têm.

Vejo muita televisão. Tenho, pois, um contato platônico com os pobres de outros países. Pelo que depreendo desses documentários, há pobre que não acaba mais neste mundo de Deus, que, por falar Nele, parece que se esqueceu deles. Prometeu o Reino dos Céus, mas isso é muito vago para quem lê tabloide só para saber detalhes de crimes hediondos e entrevistas com violentos jogadores de futebol.

Os pobres na televisão primam por sua sem-graceza. Por sua feiura, também. Volta e meia, lá estão os indianos, que os britânicos são saudosistas do império que se foi. Os africanos e suas tribos também vivem batendo ponto. Em suma, a miséria dá um tremendo Ibope em telonas de plasma e alta definição. As contribuições para as entidades beneficentes, a cada exibição de um filme sobre pobre – sejamos francos: sobre a miséria humana – aumentam em mais de 25% da caridade habitual. Eles, os destituídos (sejamos docemente eufemísticos), merecem de nós uma solidariedade mais concreta do que um simples mal-estar à noitinha, depois do lauto jantar.

Aqui em Londres, onde volta e meia dou com um pobre, ou miserável, há estátua que não acaba mais. São os britânicos chegados a uma estátua. De preferência não-equestre, pois têm bom gosto, além de um dinheirinho guardado para as férias no Continente e uma eventualidade qualquer.

No Brasil, os pobres, os miseráveis, eram – e ao que parece continuam a ser – de altíssima visibilidade. Lembro-me particularmente de um, sempre sentado no chão, perto da bilheteria do cine Copacabana, ali perto da Constante Ramos, exibindo sua perna esquerda muito rubra e coberta de chagas, um caso típico de elefantíase, com um jornal do lado e empregando o bordão clássico, “Uma esmolinha, pelo amor de Deus”. Tinha gente que dava, incentivando assim o descaso das devidas autoridades encarregadas da distribuição de nossas riquezas.

Aí chego à notícia que eu queria chegar. Deu semana passada num jornal brasileiro e eu pesquei na internet. Os ricos brasileiros – que correspondem a 1% da população do país – gastam em três dias o mesmo que os pobres em um ano. Informação fidedigna: o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) com base numa Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do IBGE. Isso é relativo ao ano passado. Não creio que as benesses do pré-sal tenham melhorado ou venham a melhorar a situação. Segundo um pesquisador do Ipea, Sergei Soares, “o Brasil ainda é um monumento à desigualdade”. O instituto constatou ainda que a renda obtida por meio do trabalho voltou a ser a principal responsável pela queda na diferença social.

Tudo isso me deixa meio zonzo. Em que é que ricos gastam em três dias e os pobres em um ano? E que história é essa de pobre trabalhando ser motivo de diferença social? Os pobres que se me ocorrem estão todos desempregados. A não ser que passaram a contar aquele cara com elefantíase perto do cinema.

De qualquer forma, há boa notícia embutida aí: temos aí mais um monumento, a se juntar aos do Zózimo, Drummond, Ibrahim Sued e tantos, tantos outros na Cidade Maravilhosa, que é o Rio.