Dólar cai e Mantega não descarta medidas adicionais sobre câmbio

O ministro da Fazenda, Guido Mantega (Foto: Antonio Cruz/ABr)
Image caption Mantega diz que nada impede governo de estudar outras medidas

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse nesta quarta-feira, em Brasília, que “nada impede” o governo de pensar em “medidas complementares e adicionais”, referindo-se ao mercado de câmbio.

Na segunda-feira, a Fazenda anunciou a cobrança de Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre investimentos estrangeiros em bolsa e em títulos públicos com alíquota de 2%.

"Acabamos de lançar a medida, temos que observar sua repercussão, acreditamos que será positiva, que nós vamos alcançar os objetivos que estão estabelecidos. Isso não impede que possamos pensar em medidas complementares adicionais", disse o ministro a jornalistas, após uma audiência pública na Câmara.

O objetivo da medida é tentar conter a valorização do real frente à moeda americana, que acumula alta de 25% neste ano.

Na visão do governo, há um “excesso” de dólares no país, sobretudo em investimentos de curto prazo – bolsa de valores e papéis do governo.

Esse fluxo, segundo Mantega, contribui para a valorização do real, prejudicando os exportadores, que são remunerados em dólar.

“Nossa preocupação é que essa valorização do real prejudique as exportações e a geração de empregos no país”, disse o ministro.

Mesmo com a cobrança do IOF sobre o capital estrangeiro e com o comentário do ministro sobre medidas adicionais, o dólar comercial fechou com uma queda de 1,2% nesta quarta-feira, a R$ 1,72.

Na terça-feira, primeiro dia de negociação sob a nova regra, a moeda americana fechou em alta de 2,1%, valendo R$ 1,74 para compra.

Especulação

Ao taxar em 2% o capital estrangeiro na bolsa e em renda fixa, o governo pretende atingir os especuladores – ou seja, investidores que deixam seu dinheiro no país apenas por um curto período.

Segundo Mantega, o investidor de longo prazo não será afetado com a medida. “O que vai diminuir é o fluxo de curto prazo. Aqueles que querem aplicar hoje na bolsa e sair amanhã”, disse.

A lógica da cobrança do IOF é de que o custo com a alíquota se dilui ao longo do tempo, ou seja, quanto mais tempo o investidor ficar no país, menor será o impacto do imposto.

Essa não é a primeira vez que o governo brasileiro impõe restrições ao capital estrangeiro. Em março do ano passado, também frente a uma forte valorização do real, o Brasil passou a cobrar 1,5% de IOF sobre os investimentos em renda fixa, mas decidiu retirar a alíquota diante do agravamento da crise financeira.

Naquela época, porém, a medida não foi suficiente para evitar a queda do dólar. Em cinco meses, a moeda americana caiu do patamar de R$ 1,74 para R$ 1,56.

Sem efeito

Uma das críticas à medida é de que a alíquota de 2% não seria “suficiente” para afugentar o investidor estrangeiro.

“Mesmo com o imposto ainda vale a pena investir no Brasil. Estamos muito melhores que economias comparáveis, como Chile e México”, diz o economista-chefe do Banco Fator, José Francisco de Lima Gonçalves.

Segundo ele, poucos investimentos têm rendido tanto quanto a bolsa de valores brasileira. “Passado o susto do primeiro dia, o investidor já está fazendo as contas e descobrindo que vale a pena trazer o dinheiro para o Brasil”, diz.

Alguns especialistas têm demonstrado ainda preocupação sobre o impacto da medida na bolsa de valores e, em consequência, no desempenho das empresas brasileiras.

Empresas de capital aberto têm utilizado cada vez mais a bolsa como canal de financiamento. Alguns economistas argumentam que a restrição ao capital estrangeiro poderá reduzir esses negócios.

Caminho certo

Já o diretor de Estudos e Políticas Macroeconômicas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), João Sicsú, diz que o governo está “no caminho certo”, mas que a medida, para surtir efeito, exige uma alíquota maior.

“Temos uma taxa de juros tão alta que mesmo com um imposto superior a 2% ainda seríamos um mercado atraente para os investidores de longo prazo”, diz.

Na avaliação do economista, o capital que fica no Brasil por pouco tempo “não nos interessa”.

“Não precisamos de investimentos que ficam por apenas três meses”, diz. Sicsú não acredita que as empresas terão seus financiamentos prejudicados. “Os financiamentos por meio da bolsa ainda são pequenos no Brasil. O grosso das empresas se financia via bancos”, acrescenta.

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