Asfalto na Floresta: BBC Brasil percorre a BR-319 na Amazônia"

Sob um calor inclemente, na rodoviária de Porto Velho, uma passageira cercada de malas e caixas, reclama do preço que pagou pela passagem de avião para voltar de Manaus à capital rondoniense.

Mais de cem quilômetros estrada acima, no assentamento Renascer, a professora primária conta que há cinco anos dá aulas no local e, por falta de transporte público, é obrigada a pegar carona na ida e na volta.

As duas histórias tem como ponto comum a BR-319. No trecho urbano da rodovia, onde fica a rodoviária, a autônoma Hilda Oliveira me contou que pagou R$ 300 pela passagem aérea.

Já a passagem do ônibus da Eucatur que liga Porto Velho a Humaitá, no Amazonas, a última parada na rodovia, é bem mais barata: R$15.

De acordo com o gerente da empresa na capital de Rondônia, Maximino Bedin, se estivesse em operação, o trecho até Manaus chegaria a uns R$ 120 e encheria até seis ônibus por dia.

Até Humaitá são quatro serviços por dia, mas para Márcia da Silva, que ganha menos de R$ 700 por mês como professora da rede municipal, o preço é proibitivo.

Ela teria que pagar o valor do bolso diariamente para saltar no Renascer, um povoado com 68 famílias nas margens da BR-319.

Em vez disso, ela se vira como caroneira para percorrer as quase duas horas que separam o local da capital do estado vizinho.

As duas mulheres veem nos planos de reabertura da estrada a expectativa de uma qualidade de vida melhor.

Hilda de Oliveira diz que visitaria a filha em Manaus mais frequentemente. A professora Márcia sonha com a instituição de transporte público.

O que pude perceber, entretanto, é que pelo menos no caso da professora, mais do que solução direta para os problemas do assentamento Renascer, a BR-319 é vista como uma impalpável esperança no futuro.

Na escola municipal de 80 alunos em que Márcia trabalha não há segundo grau..

“As crianças aqui são praticamente condenadas a parar de estudar, por falta de escola depois do ensino médio”, diz.

Eu pergunto o que a BR-319 tem a ver com isso, e ela me diz que pelo menos assim o governo deve voltar a olhar para as pessoas que vivem à beira dela.