Moradores de Veneza realizam 'funeral simbólico' da cidade

Veneza (foto: Guilherme Aquino)
Image caption Moradores de Veneza culpam falta de moradia e trabalho por queda na população

Moradores de Veneza realizam neste sábado uma manifestação na qual farão o "enterro" da cidade, com o objetivo de alertar para o declínio demográfico que, segundo os moradores, é causado pelo turismo em massa e a falta de moradia e trabalho na cidade.

No funeral simbólico, um cortejo fúnebre de barcos a remo vai percorrer os principais canais ao redor do centro histórico.

Um caixão rosa e a tradicional máscara de carnaval, desta vez cobrindo a imagem de uma caveira, vão navegar entre os antigos palácios, pontes e praças. O enterro é um protesto bem-humorado contra o despovamento da cidade, com direito a orações religiosas em dialeto, lágrimas e pesares.

Nos últimos 40 anos, a população local caiu para menos da metade.

No sábado também vai haver uma coleta de DNA. Pesquisadores da Worcester Polythecnic Institute de Massachussets e da National Geographic Society vão aproveitar a presença dos "órfãos" de Veneza para recolher o patrimônio genético dos venezianos.

Eles precisam de 5 mil amostras de saliva que serão incluídas no estudo sobre a origem das populações da Europa centro-ocidental e, por tabela, do nascimento e da migração do povo veneziano pelo mundo.

Perda populacional

Image caption Contador populacional foi instalado na vitrine da farmácia Morelli

Um contador digital de venezianos registra o abandono da cidade, dia e noite. Ele foi montado na vitrine de uma antiga farmácia, entre a ponte do Rialto e a praça de São Marcos, para chamar a atenção dos moradores e dos visitantes.

Os venezianos eram 121.309 em 1966, 84.355 em 1986, e atualmente romperam a barreira dos 60 mil residentes fixos.

A iniciativa da manifestação é de um grupo de moradores, o Venessia.com, com a adesão de outros movimentos sociais como Jovens Venezianos.

"Qual é a novidade? Não estou seguro que exista uma diferença entre 59.999 e 60 mil habitantes", se defende o prefeito Massimo Cacciari.

Turismo

A falta de uma política habitacional e a invasão do turismo em massa estão entre as principais causas desta migração. Todos os anos, Veneza recebe cerca de 20 milhões de turistas.

"Não somos contrários ao turismo, mas sim a esta transformação do tecido urbano e social numa espécie de parque de diversões", disse a BBC Brasil Marco Vidal, presidente da Associação Jovens Venezianos.

Ele pretende recolher 4 mil assinaturas para levar ao novo prefeito, a ser eleito no ano que vem, uma lista de reivindicações e sugestões, como a transformação da zona abandonada do Arsenal em área destinada a residências populares e a empresas do setor terciário.

Enquanto os novos moradores não chegam, os visitantes desembarcam dos navios de cruzeiro e dos ônibus de excursões terrestres. Com uma permanência média de um dia e meio, a grande maioria não consegue admirar os detalhes de Veneza.

A cidade responde a esta "ocupação" perdendo a própria identidade. Nos últimos anos, 40% do artesanato de qualidade desapareceu por causa do impacto desta modalidade de turismo. E muitos lojistas vendem produtos chamados"venezianos", porém feitos na China.

O custo de vida nas alturas leva muitos moradores a trocarem de cidade ou a transformarem os próprios imóveis em pensões para acolher os viajantes de passagem.

Image caption Contador mostra que população de Veneza já está abaixo dos 60 mil

Antigas lojinhas locais tradicionais dão lugar a vitrines de grifes globalizadas de luxo e a sofisticadas galerias de arte. Na vizinha ilha de Murano, famosa pela produção de artigos em vidro, as fundições fecham as portas em nome da especulação imobiliária.

Modernidade e raízes

As críticas aos maus tratos sofridos por Veneza são quase unânimes.

"Veneza é a única cidade no mundo na qual um transatlântico navega no meio das casas, pelo Canal Grande. Muitos destes turistas não visitam a cidade porque querem, mas sim porque ela está incluída no pacote vendido pelas agências. Queremos um turismo não elitista mas de qualidade, não podemos ser figurantes da e na nossa cidade", disse à BBC Brasil Francesca Bortolotto Possati, proprietária do hotel de luxo Bauer.

Ela é favorável à cobrança de um ingresso de um valor de cerca de 4 euros (aproximadamente R$ 10) aos visitantes da cidade. Este polêmico projeto, ainda em discussão, serviria para frear e regular o fluxo de presença de turistas na cidade, além de financiar o recolhimento do lixo. Veneza paga a taxa mais alta da Itália.

O assessor do Turismo da Prefeitura de Veneza, Augusto Salvadori, reconhece o problema.

"Modernizar Veneza é uma tarefa muito difícil. Temos que respeitar o contexto arquitetônico, histórico e artístico. Temos que investir em Veneza mas as leis de urbanismo não são suficientes. Queremos que muitos venezianos voltem a morar aqui e vemos uma grande vontade do investidor privado em ajudar neste relançamento", disse ele à BBC Brasil.