Austrália se desculpa por 4 décadas de maus tratos em orfanatos

Crianças imigrantes britânicas aguardam ao lado do SS Asturias, em 1947
Image caption Ao embarcar, muitas das crianças ouviam das autoridades que seus pais estavam mortos - o que não era verdade

O primeiro-ministro da Austrália, Kevin Rudd, pediu desculpas às centenas de milhares de pessoas, algumas vindas da Grã-Bretanha, que sofreram abusos durante a infância quando aos cuidados do Estado australiano no século passado.

Rudd disse que "sentia profundamente" pela dor causada às crianças e suas famílias.

Ele disse esperar que o pedido nacional de desculpas ajude a "sarar a dor" e seja um ponto de partida para uma nova etapa na história da Austrália.

Cerca de 500 mil "australianos esquecidos" sofreram abusos ou foram negligenciados em orfanatos entre 1930 e 1970. Muitas foram educadas apenas para trabalhar em fazendas e sofreram violência sexual, psicológica e física.

"Pedimos desculpas pela tragédia - a tragédia absoluta - das infâncias perdidas", disse o primeiro-ministro australiano à multidão.

"Sentimos muito por vocês terem sido tirados de suas famílias e colocados em instituições onde com frequência vocês foram abusados. Sentimos pelo sofrimento físico, pela carência emocional e fria ausência de amor, de ternura, de atenção".

Kevin Rudd disse que era importante reconhecer o passado para que o país possa seguir em frente como nação.

No ano passado, o premiê fez um pedido formal de desculpas a aborígenes que foram tirados à força de suas famílias e enviados a instituições do Estado ou a casas de famílias brancas, uma política que só foi suspensa durante a década de 1960.

Imigração

O primeiro-ministro australiano também ofereceu suas desculpas às crianças imigrantes vindas da Grã-Bretanha durante o pós-guerra, em muitos casos, sem o consentimento dos pais.

No domingo, o governo da Grã-Bretanha anunciou que, no próximo ano, o primeiro-ministro Gordon Brown pretende pedir desculpas pela política de emigração forçada adotada pelo país. Sete mil das crianças imigrantes ainda vivem na Austrália hoje.

De acordo com o Programa de Imigração Infantil, encerrado há apenas quatro décadas, a Grã-Bretanha enviou crianças pobres para uma "vida melhor" na Austrália, Canadá, Nova Zelândia, África do Sul e Zimbábue (antiga Rodésia).

Muitas das crianças já estavam aos cuidados de instituições públicas após terem sido retiradas de suas famílias pelo Estado ou abandonadas pelos pais.

Forçadas a embarcar nos navios que as levariam para a Austrália, muitas das crianças ouviam das autoridades que seus pais estavam mortos - o que, em grande parte dos casos, não era verdade.

A maior parte dos pais não sabia que seus filhos, alguns com apenas três anos de idade, haviam sido enviados para a Austrália.

Agências de assistência trabalhavam com o governo para enviar crianças carentes para um futuro risonho e suprir o que na época era considerado "bom sangue branco" para uma antiga colônia.

Margaret Humphreys, fundadora do Child Migrants Trust, entidade que oferece assistência às vítimas da política de imigração forçada, viajou da Grã-Bretanha para a Austrália para ouvir o pedido de desculpas do premiê australiano.

"Temos feito campanha há 20 anos por um reconhecimento desse tipo e com essa seriedade".

"Este é um momento significativo na história da imigração infantil. O reconhecimento é vital para que as pessoas se recuperem".

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