Visita de líder do Irã ao Brasil divide opiniões nos EUA

Mahmoud Ahmadinejad
Image caption Presidente do Irã se reúne com Lula em Brasília nesta segunda-feira

A visita do presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, a Brasília desperta dúvidas nos Estados Unidos sobre o impacto do encontro do líder iraniano com autoridades brasileiras para o futuro das tentativas de diálogo com o Irã e para a imagem do Brasil no exterior.

Um funcionário do alto escalão do Departamento de Estado americano diz esperar que o "Brasil consiga encorajar o Irã a recuperar a verdade perante a comunidade internacional, cumprindo todas as suas obrigações internacionais".

"Nós acreditamos que o Irã tem direitos, mas direitos com responsabilidades", afirma o funcionário. "O Irã precisa restaurar a fé e a confiança da comunidade internacional no caráter civil de seu programa nuclear."

Na avaliação de Michael O'Hanlon, do centro de estudos Brookings Institution, com sede em Washington, o impacto da visita nos esforços da comunidade internacional para barrar o programa nuclear do Irã dependerá do tipo de agenda que Ahmadinejad terá no Brasil.

"É claro que, até certo ponto, isso depende do caráter dos encontros", diz O'Hanlon. "Afinal, depois de tudo, o ex-presidente Bill Clinton se encontrou com Kim Jong II na Coréia do Norte neste ano."

"Mas uma recepção formal de Estado não seria apropriada a Ahmadinejad, acusado de roubar uma eleição, apoiar o terrorismo, assassinar membros das forças de coalizão no Iraque ao longo dos anos, reprimir dissidentes internos, manter um programa nuclear ilícito e dizer palavras apocalípticas contra Israel", acrescenta o pesquisador.

Diálogo

O presidente iraniano, que nega o Holocausto e prega o fim do Estado de Israel, vai se reunir com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nesta segunda-feira. A visita tem como objetivo estreitar os laços diplomáticos entre os dois países.

Em meio a protestos dentro do Brasil e também críticas vindas de fora do país, o presidente Lula chegou a defender a visita do colega iraniano com o argumento de que não se constrói a paz no Oriente Médio sem conversar com todas as religiões e forças políticas e religiões.

Quando assumiu o cargo, em janeiro, o presidente americano, Barack Obama, também adotou discurso semelhante ao afirmar que isolar o Irã não é produtivo.

Na opinião de Nina Hachigian, pesquisadora do Center for American Progress, a visita do presidente iraniano não deverá afetar as relações entre o Brasil e os Estados Unidos.

De acordo com Hachigian, os Estados Unidos tentam no momento aumentar a pressão contra o Irã e seu programa nuclear, mas - ao mesmo tempo - também conduzem o mais alto nível de diplomacia com Teerã em décadas.

"Se o Irã mudar o caminho que está seguindo agora, penso que realmente o governo Obama poderia estar pronto para descongelar a relação com o país", diz a pesquisadora. "Se Lula puder ser convincente sobre isso, poderia encorajar o Irã a seguir outro caminho, e isso certamente seria útil."

Erro

Já o congressista democrata Eliot Engel, que organizou no mês passado uma audiência pública no Congresso americano para discutir a influência do líder iraniano no Hemisfério Ocidental, mais precisamente na América do Sul, critica veementemente a visita de Ahmadinejad ao Brasil.

"É um erro terrível", afirma Engel. "Um país democrático e importante como o Brasil não deveria estar recebendo um ditador com sangue em suas mãos, que liderou uma eleição fraudulenta e está desenvolvendo armas nucleares para motivos que não podem ser considerados pacíficos."

O democrata preside o subcomitê do Congresso americano para o Hemisfério Ocidental e é co-líder do grupo Brasil-Caucus, formado por congressistas que defendem uma intensificação nas relações entre Brasil e Estados Unidos.

"O Irã não tem qualquer proposta de paz", avalia Engel. "Não penso que seja possível falar sobre paz com Ahmanidejad. É um erro o Brasil dar credibilidade a ele."

O congressista acrescenta, no entanto, que a relação entre Estados Unidos e Brasil não deve sofrer alterações com a visita do presidente iraniano, e mesmo depois da possível viagem de Lula a Teerã em maio do ano que vem.

"Espero que as relações entre os dois países continuem boas, e espero que esta visita não interfira no futuro das políticas do governo brasileiro", diz Engel.

"Mas preciso dizer que não tenho como entender porque o Brasil está recebendo Ahmadinejad de braços abertos e, ao mesmo tempo, critica os Estados Unidos por utilizar bases militares na Colômbia", conclui o congressista democrata.

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