Lula recebe Ahmadinejad em meio a polêmica

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva cumprimenta seu colega iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, durante encontro em Brasília (AP, 23 de novembro)
Image caption Lula respondeu às críticas à visita de Ahmadinejad

O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, desembarcou nesta segunda-feira no Brasil para uma visita cercada de polêmica.

No domingo, antes mesmo da chegada de Ahmadinejad ao país, entidades ligadas à comunidade judaica, grupos religiosos, de defesa dos direitos humanos, de homossexuais e outras organizações realizaram protestos no Rio de Janeiro contra a visita do líder iraniano.

Nesta segunda-feira, em frente ao Ministério das Relações Exteriores, em Brasília, algumas dezenas de pessoas carregando bandeiras de Israel e cartazes dos movimentos gay e feminista gritavam palavras de ordem contra o presidente iraniano.

Um grupo menor carregava bandeiras palestinas e saudava os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Ahmadinejad.

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Ahmadinejad chegou ao Palácio do Itamaraty com uma hora de atraso, às 12h30. O iraniano entrou rapidamente no prédio – os manifestantes ficaram praticamente encobertos pela polícia montada – e, depois de cumprimentar o presidente Lula, seguiu para uma reunião reservada.

Críticas

Os críticos da visita de Ahmadinejad questionam o fato de o Brasil receber um líder tão polêmico com honras de chefe de Estado. Esses críticos temem que o gesto possa deixar a impressão de que o Brasil concorda com as posições do presidente iraniano - que defende o fim do Estado de Israel, nega o Holocausto e resiste à pressão internacional para que o Irã interrompa seu programa de enriquecimento de urânio.

O governo brasileiro, porém, afirma que a política externa brasileira tem uma tradição de não intervir em assuntos internos de outros países, que isolar o Irã seria menos produtivo e que o melhor caminho é o diálogo.

Reagindo às criticas, o presidente Lula disse no domingo que estava honrado em receber no Brasil a terceira figura importante do Oriente Médio em menos de 15 dias: nas últimas duas semanas já estiveram em Brasília o presidente de Israel, Shimon Peres, e o presidente da Autoridade Nacional Palestina, Mahmoud Abbas.

“Com todos queremos falar de paz”, disse o presidente.

Às vésperas de assumir uma vaga rotativa no Conselho de Segurança da ONU e com a pretensão de conquistar um assento permanente, o Brasil busca com as visitas dos líderes do Oriente Médio desempenhar um papel mais relevante nas grandes discussões internacionais.

Críticos, no entanto, afirmam que Ahmadinejad está apenas usando o Brasil – e a América Latina – para tentar furar o bloqueio internacional que é imposto ao país.

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Nesta segunda-feira, enquanto esperava Ahmadinejad no saguão do Itamaraty, Lula confirmou que o Brasil pretende promover um jogo de futebol entre a seleção brasileira e um combinado de israelenses e palestinos.

“Posso até jogar de ponta de lança”, brincou.

Agenda

Ahmadinejad ficará apenas um dia no Brasil. Depois, passará pela Venezuela e pela Bolívia, seus aliados na América Latina.

A visita do líder iraniano ocorre em meio ao crescente isolamento do país, especialmente devido a seu programa de enriquecimento de urânio. Estados Unidos e outros países temem que o Irã planeje desenvolver armas nucleares secretamente e pressionam o governo a interromper o enriquecimento de urânio.

A recusa de Teerã em ceder às pressões tem provocado sanções da ONU contra o país. O governo iraniano nega as alegações e afirma que seu programa nuclear é pacífico, com o objetivo de geração de energia.

Antes de embarcar, Ahmadinejad divulgou uma carta em que pede que o Brasil fique "ao lado do povo iraniano" em questões nucleares.

A visita de Ahmadinejad ao Brasil estava inicialmente prevista para maio, mas foi adiada na última hora, pouco antes das eleições no Irã.

No pleito, realizado em junho, Ahmadinejad foi reeleito em uma votação marcada por acusações de fraude. Na época, o presidente Lula foi um dos primeiros líderes a reconhecer a vitória de Ahmadinejad.

Os protestos que se seguiram à divulgação dos resultados da eleição foram os maiores realizados no Irã desde a Revolução Islâmica, em 1979. A violenta repressão aos protestos deixou dezenas de mortos e centenas de pessoas presas e foi criticada por diversos países.

Ahmadinejad chegou a Brasília acompanhado de uma comitiva de quase 300 pessoas, entre elas cerca de 150 empresários de diversos setores.

Ainda nesta segunda-feira, o presidente iraniano almoça com o presidente Lula e participa de uma cerimônia de assinatura de atos bilaterais.

Um dos objetivos da viagem é reforçar as ligações comerciais entre os dois países. No ano passado, o Brasil exportou US$ 1,13 bilhão para o Irã e importou US$ 14,78 milhões.

Ahmadinejad também participa do Fórum Empresarial Brasil-Irã, com a presença de cerca de 200 empresários dos dois países.

O líder iraniano participa ainda de um encontro com estudantes no Instituto de Ensino Superior de Brasília (IESB), que periodicamente promove seminários para os alunos com a participação de figuras internacionais importantes.

Em geral, os alunos têm grande liberdade para fazer perguntas aos convidados, mas ainda não está claro como serão os procedimentos no caso deste convidado controverso.

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