O que é que há com nosso Peru?

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

“Pô, assim não há peruano que aguente!” Era mais ou menos o que se dizia diante de uma dificuldade ou impossibilidade que surgisse à nossa frente. Estou me censurando a mim mesmo e ao nosso rico calão. Referíamo-nos a uma parte específica do corpo de um peruano.

Com o passar do tempo, aprendi alguns bons modos, embora a lição tenha chegada numa época errada. O que ouço da boca de mocinhas bem-educadas é de fazer – também como se dizia – corar um frade de pedra. Ou ainda: não há peruano que aguente!

Nunca entendi, apesar de muita pesquisa, mesmo informatizada, a origem da maldosa expressão. Os peruanos, coitados, estavam na deles, e não chateavam ninguém. Onde fomos buscar esse descalabro, continua sendo um mistério.

Como mistério também cerca o Peru e quase tudo que nele se passou e passa. Mário Vargas Llosa já me explicou, em vários de seus livros, algo de seus conterrâneos. Nada, no entanto, a respeito da expressão que deixei, digamos assim, capenga.

Até mesmo uma tolice violenta, estúpida mesmo, como essa dos felizmente desaparecidos “senderos luminosos”, cujas tristes façanhas – maoistas, vejam vocês – o resto do mundo acompanhava abobado, deu em romance que botava certos pontos em um bom número de ii. Virou ainda filme fraco com o John Malkovich. O importante é que o fenômeno passou. Para alívio geral. Menos um, ao menos.

Agora, está de novo o Peru nos noticiários. De novo, devido a besteira. Prenderam um grupo de pessoas (mas pode me chamar de “quadrilha”) por assassinato. Até aí, nada demais. O mundo mata. Viver é matar e morrer, conforme nos ensinou Gary Cooper. Agora, tem que ter, por mais canalha que seja, um motivo qualquer. Os recentes peruanos presos tinham. Matavam por lucro. O que não chega a ser novidade. Só tem um pequeno detalhe. Era matança ordenada e correndo solta há muito tempo.

O objetivo? Tráfico de drogas? Nada. Vocês devem ter lido. Extrair a gordura dos assassinados. Extrair, destilar, engarrafar e, a seguir, vender para atravessadores que, por sua vez, encaminhavam para laboratórios de cosméticos europeus. A gordura humana servia (ainda haverá reservas? Continuará servindo?) de base para cremes de beleza para as senhoras e senhoritas europeias. Definitivamente, nada menos correto politicamente.

Muito pior do que usar casaco de peles ou exagerar no pedido de sushi contendo atum, outra espécie ameaçada, como os peruanos gordinhos. Eu digo “gordinhos” de adivinhação. Nada impede que um peruano magérrimo não contenha, em sua gordura, mesmo parca, o segredo da beleza feminina. Que seja raro e pródigo em suas qualidades. Algo assim, feito trufa.

O que mais me chocou nessa história toda foi a reação de algumas mulheres de meu conhecimento, felizmente pouquíssimo conhecimento. Ouvi da boca de mais de uma que isso era uma “monstruosidade”, uma “pouca-vergonha”, um “verdadeiro desaforo”.

Procurei sondar esse outro mistério que é o raciocínio da mulher, tão enigmático quanto os peruanos e a expressão que nos legaram. Pelo menos três das moças ficaram indignadas com a matéria-prima empregada na fórmula mágica e não em sua exploração e exportação. Irritava-as o fato de não ser de origem sueca, norueguesa, nórdica enfim. Enojavam-se com a possibilidade de terem se maquiado e se empetecado com gordura de possíveis descendentes de incas.

Nenhuma, no entanto, usou a expressão com que iniciei minha pequena dissertação: “Assim não há peruano que aguente!”.