Brasil deve tentar complementar EUA na América Latina, diz Enrique Iglesias

Enrique Iglesias (arquivo)
Image caption Para Iglesias, Brasil não deve ser antagonista dos EUA na América Latina

O secretário-geral da Cúpula Ibero-Americana, o uruguaio Enrique Iglesias disse, em entrevista exclusiva à BBC Brasil, que o Brasil não deve tentar ser um contraponto aos Estados Unidos no protagonismo político na América Latina, mas sim ser complementar ao país norte-americano.

"O Brasil é uma grande potência no mundo inteiro, particularmente na América Latina. Portanto, precisamos de todo o mundo, precisamos da cooperação com os Estados Unidos, com o Brasil, com a Europa. Portanto, temos de ver o Brasil não como contraponto, mas como complemento", afirmou Iglesias em Lisboa, onde dirige a 19ª Cúpula Ibero-Americana, a partir deste domingo.

Pelo menos 18 dos 22 chefes de Estado da região confirmaram sua presença. Ficam faltando Honduras – porque o governo golpista não é aceito –, além de Uruguai e Bolívia, por estarem em processos eleitorais. Seguindo a tradição adotada por Fidel Castro, o presidente cubano Raúl Castro não confirmou sua presença, mas tampouco afirmou que não vem, e poderá aparecer na última hora.

A reunião vai ocorrer em meio a vários conflitos na América Latina: a questão presidencial em Honduras, a tensão entre Colômbia e Venezuela por causa das bases norte-americanas em território colombiano e as acusações de espionagem do Peru ao Chile, que fez com que a delegação peruana abandonasse a reunião do Grupo de Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico (Apec).

Iglesias acredita que a reunião em Portugal, especialmente os encontros bilaterais que normalmente ocorrem em paralelo, poderão resolver esses conflitos.

"Acredito que prevalecerá a capacidade de diálogo. A presença dos chefes de Estado é muito importante para facilitar as conversações. Esta seria a maior contribuição que podemos dar para a resolução desses conflitos. A verdade é que a América Latina tem uma grande capacidade de diálogo e solução de conflitos e acho que vai resolver estes também de uma forma pacífica."

Segundo Iglesias, na reunião a portas fechadas, os presidentes deverão discutir uma posição para a Conferência sobre o Clima, que vai ocorrer em Copenhague, na Dinamarca, de 7 a 18 de dezembro.

"Seguramente, no encontro fechado dos chefes de Estado isso vai fazer parte das discussões e é possível que alguma resolução ligada ao tema do clima apareça nos textos finais da conferência. Os países devem tomar a posição de defender o compromisso dos grandes países poluidores, os Estados Unidos e a China, com a redução das emissões de carbono e também compromissos dos próprios países latino-americanos."

Democracia

Em relação a Honduras, a Cúpula Ibero-Americana tomou uma posição dura de defesa da legitimidade democrática do presidente Manuel Zelaya, afirmando que não aceitaria na reunião a presença de representantes do governo de Roberto Micheletti.

"Temos que procurar meios de facilitar a aplicação dos princípios fundamentais aprovados nos acordos de San José e Tegucigalpa. Acho que seria muito importante cumprir esses princípios, com o retorno do presidente Zelaya ao poder e dessa forma, com as novas eleições, começar a avançar no processo."

No entanto, a posição a respeito da democracia em Cuba não é tão firme.

"Esse tema em geral não aparece na pauta das nossas reuniões. Normalmente, os países têm sido respeitados nas suas questões internas. Essas questões são consideradas de foro interno. No caso de Honduras, aconteceu um golpe de Estado e foi uma reação."

Inovação

O tema escolhido para a cúpula é a inovação. Segundo Iglesias – que foi presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento – este é o grande desafio da América Latina para sair do atraso em relação às economias mais desenvolvidas. Uma das resoluções deverá ser a aprovação de um programa de cooperação entre empresas e Estados para ampliar o processo de inovação.

"Tem de haver uma aliança estratégica entre Estados, empresas e conhecimento, o que quer dizer centros de pesquisas e universidades. As empresas latino-americanas têm que ter apoio decisivo do governo, mecanismos de crédito, incluindo compartilhar riscos por parte do setor público ou facilitar crédito que permita verdadeiramente favorecer os investimentos nessa área."

Ele considera que o Brasil está na frente dos outros países latino-americanos na inovação tecnológica.

"A região tem uma média de investimento de 0,5% e o Brasil encontra-se acima de 1%, o que quer dizer que no país isso já foi assumido como um valor fundamental. Agora, é na área das pequenas e médias empresas que precisamos aumentar isso. As grandes empresas são conscientes, sabem muito bem da importância da inovação. São as pequenas empresas que tem que competir no mercado mundial e para isso precisam aumentar os investimentos em inovação."

Uma das características da reunião é que a América Latina conseguiu ter uma melhor resposta à crise mundial do que a maior parte do mundo. E Iglesias explica a razão.

"Os países da América Latina estavam muito melhor preparados no que diz respeito à gestão da macroeconomia. Nos últimos anos, esses países tiveram experiências muitas vezes dramáticas e hoje sabem muito melhor do que antes como administrar a política econômica. Em segundo, os bancos latino-americanos estavam e estão muito fortes, não entraram nas áreas especulativas, como os bancos americanos e europeus."

"E, finalmente, os países abaixo do Panamá estão mais ligados ao ciclo asiático, o que fez a grande diferença. Os países mais ligados ao ciclo americano, como o México e os países do Caribe, tiveram um impacto muito maior da crise, mas os países do sul foram favorecidos pela dinâmica asiática."