Lula diz que Brasil está pronto a financiar países mais pobres

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva chega ao Bella Center em Copenhague
Image caption Lula discursou antes de Obama em Copenhague

Em seu discurso na plenária final da conferência das Nações Unidas sobre o clima, diante de um impasse que ameaça um acordo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta sexta-feira que o Brasil está disposto a participar de financiamentos para países em desenvolvimento.

Falando durante 20 minutos, antes do discurso do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, Lula disse estar "um pouco frustrado" com o aparente fracasso das negociações de alto nível na noite de quinta-feira.

"Ontem, estava na reunião e me lembrava dos meus tempos de dirigente sindical, quando negociava com empresários", comparou.

"Mesmo as metas, que deveriam ser uma coisa mais simples, tem muita gente querendo barganhar."

O presidente brasileiro deixou claro que os principais obstáculos continuam sendo a resistência da China a aceitar o que os Estados Unidos chamam de "transparência", ou seja, a adoção de resultados "mensuráveis, reportáveis e verificáveis" – MRV, no jargão dos negociadores – e o financiamento aos países mais pobres.

Sobre o primeiro ponto, Lula defendeu o direito dos países industrializados à cobrança de ações passíveis de verificação externa, mas alertou para os riscos de invasão da soberania.

"Os países que derem o dinheiro têm direito de exigir transparência até cumprimento de metas. Mas é verdade que precisamos tomar muito cuidado com a intrusão dos países desenvolvidos em países em desenvolvimento."

O presidente acrescentou, entretanto, que "cada país tem que ter a capacidade de se autofiscalizar".

Já o financiamento foi considerado fundamental pelo presidente, por sua importância para o desenvolvimento dos países pobres. Lula destacou, no entanto, que "dinheiro não é tudo".

Para o líder brasileiro, é preciso que os países desenvolvidos entendam, porém , que "não estão dando esmola".

Contraste

O discurso seguinte ao de Lula foi o de Obama, e o contraste nas mensagens deu a dimensão do impasse que se instalou nas negociações sobre o clima.

"Eu não sei como podemos ter um acordo internacional, se não estamos dividindo as informações e sabendo se estamos cumprindo as metas", disse o americano.

O líder da maior economia do planeta, e segundo país que mais emite gases que causam o efeito estufa no planeta, disse que a fórmula para um acordo é clara:

"Temos que ter um mecanismo para verificar se estamos nos atendo aos nossos compromissos e trocar essa informação de forma transparente", disse.

"Mitigação, transparência e financiamento. É uma fórmula clara, que abarca o princípio das responsabilidades comuns, mas diferenciadas."

O princípio também foi citado por Lula no seu discurso, ao defender a manutenção do Protocolo de Kyoto.

"Todos nós sabemos que é preciso, para manter o compromisso das metas e financiamentos, em qualquer documento aprovado aqui, manter os princípios de Kyoto e da Convenção-Quadro (tratado que deu início às discussões sobre mudança climática)."

Mesmo dizendo-se frustrado e revelando pouca esperança de chegar a um acordo, Lula disse acreditar em "um milagre".

"Mas para que o milagre aconteça, precisamos levar em conta que tivemos dois grupos trabalhando em documentos que nós não podemos esquecer", disse, em referência às propostas de continuação de Kyoto e de um novo acordo.

Revelando todas as suas dúvidas, Lula disse ainda que adoraria sair de Copenhague com um "documento perfeito".

Mas lembrou que até o momento isso não aconteceu.

"Não sei se algum anjo ou algum sábio descerá neste plenário e irá colocar na nossa cabeça a inteligência que nos faltou até agora. Eu não sei", concluiu.

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