Porre vai ser uma água

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Já estamos na primeira semana de 2010. É hora de tomar providências. A primeira diz respeito às pessoas de almas simples, pobrezinhas. Aquelas que fizeram uma lista de resoluções de ano novo.

Elas mesmo. Que botaram na lista que iriam parar de fumar. Que passariam a ser mais pacientes com os outros. Que leriam finalmente Proust. Que emagreceriam, engordariam, cresceriam, diminuiriam, iriam para os lados – tudo isso que tanto faz e que não será cumprido de forma alguma. Adotemos a única medida possível. Deixemos, como nos anos anteriores, essas coisas para lá e continuemos fazendo as besteiras de sempre. Quem sabe? Se funcionou até agora, mais um aninho não irá fazer diferença. Isso, enfim, é com vocês.

De minha parte, não fiz resolução nenhuma. Prefiro dar tempo ao tempo, ver como andam as coisas e aí então participar da auto-enganação tradicional. No domingo, dia 3 de janeiro, eu tomei uma resolução. Para valer. Resolvi que, nos sábados e domingos, quando almoço num dos restaurantes que fazem parte do variado naipe de meu bairro, eu não mais pediria meu tradicional copinho de vinho branco seco da casa.

Pudores? Conversa de quem se levantou e deu o nome na reunião dos Alcoólicos Anônimos? Jeito nenhum. É o aspecto financeiro da coisa. Eles cobram o olho da cara (essa gíria chegará ao fim do ano?) pelo raio da meia taça. Sempre o item mais caro na hora da conta. Ou beirando o mais caro.

Resolvi então que, em 2010, beberia água. Mineral. Nunca de grife, que eu não sou pascácio (essa gíria faleceu em 1937: um minuto de silêncio em sua homenagem). Uma água mineral comum, corriqueira. Feito as Caxambu, São Lourenço ou até mesmo a sem graça Lindóia, de meus tempos de Brasil.

Tomada, quase sorvida, a resolução, parti para o indiano, no caso o Star of India, um dos primeiros a abrir suas portas em Londres (1954), para meu curry habitual ao menos uma vez por mês. A rigor, nunca tomei vinho com comida indiana. Me parece desatino. Curry, prawn biryani, seja lá o que for, só mesmo com cerveja (maiores detalhes com o BBC à Mesa).

Em geral, vou de Kingfisher, que me lembra vagamente a época em que dava para a gente tomar umas birinaites no Rio (a Portuguesa, a Colúmbia, fabricada em Petrópolis, e paro aqui para não me meter com o popular sítio nosso que já mencionei). Sai meio carinho. Em casa, depois, no mesmo dia, folheando os jornais, lá dei com a reportagem farta, como eu depois de um chole bhathure, e, ainda por cima, repleta de dados, espalhados como os condimentos que já foram exóticos e resultaram até no descobrimento das cervejas Caracu e Malzbier da Antarctica, digo, descobrimento do Brasil brasileiro, terra de samba e de pandeiro, mas nunquinhas de cerveja ou comida indiana, confere?

Resumo e parto para outro prato, este feito. Graças a uma gentil cortesia dos supermercados, hoje em dia sai mais barato a água que passarinho não bebe (resolução esquecida: não empregar expressões antiquérrimas) do que a simples água mineral, com ou sem borbulhas. Na proporção de por volta de um vigésimo de libra para o que eles chamam, com cara de pau, de “cerveja”, em relação a... já que sou fraco de aritmética, entre tantas outras coisas, a 13,2 centavos de libra para uma garrafa de Perrier, Strathmore e Highland Spring, para citar três das mais populares.

Portanto, não mais para mim a água mineral, a não ser quando em Portugal, onde há excelentes, e vou continuando no vinhosinho ou passo para a cervejota. Não fiz resolução formal, mas força é economizar que a vida aqui no Reino Unido está cada vez mais cara.

Uma explicação para o título da matéria: como eu tenho mais de 25 anos e sei passear por dicionários, informáticos ou papeláticos, sei que "água" tanto pode ser "tarefa fácil" quanto "pifão" ou "embriaguez". Daí...