EUA questionam absolvição de xeque de Abu Dhabi acusado de tortura

Xeque Issa bin Zayed al-Nahyan
Image caption O xeque chegou a ser detido em maio passado por causa da fita

Os Estados Unidos pediram aos Emirados Árabes Unidos (EAU) uma revisão da decisão judicial que inocentou um integrante da família real de Abu Dhabi acusado de tortura apesar de uma fita de vídeo mostrá-lo espancando um homem e passando de carro por cima dele.

O vídeo, transmitido por um canal de TV nos Estados Unidos, mostra imagens do xeque Issa bin Zayed al-Nahyan, irmão do presidente dos EAU, xeque Khalifa bin Zayed, batendo violentamente em um homem afegão identificado como Mohammed Poor em um deserto à noite, atirando com um rifle ao seu redor e passando sobre ele com um carro.

Al-Nahyan foi inocentado no domingo, depois de a corte ter aparentemente aceitado as argumentos dos advogados do réu, de que o xeque havia sido drogado e “não estava consciente de suas ações”.

Segundo um porta-voz do Departamento de Estado americano, os Estados Unidos "reconhecem que todos os membros da sociedade nos Emirados são iguais perante a lei".

"Apreciaríamos uma cuidadosa revisão da decisão do juiz", disse o porta-voz, P.J. Crowley.

Os comentários foram vistos como uma rara crítica americana aos Emirados Árabes Unidos, que são aliados dos Estados Unidos e o terceiro maior produtor de petróleo do mundo.

'Conspiração'

O incidente veio à tona quando foi circulada uma fita de vídeo mostrando o espancamento de , que teria ocorrido em 2004.

Esta é a primeira vez que um membro da família Real é investigado nos Emirados Árabes Unidos.

O advogado do xeque, Habib al-Mulla, disse que a decisão da corte “esclareceu a posição do xeque Issa de que ele foi vítima de uma conspiração”, além de identificar os culpados.

Durante o julgamento, a defesa alegou que o xeque foi drogado pelos irmãos americanos de origem libanesa Ghassan e Bassam Nabulsi, que teriam filmado o espancamento para chantageá-lo.

Os irmãos – que não compareceram ao julgamento - foram condenados a cinco anos de prisão por drogar o xeque, além de uma multa de 10 mil dirham (cerca de R$ 4.700).

Três outros homens foram condenados a penas entre um e três anos de prisão por sua participação na tortura.

‘Sinal de igualdade’

O vídeo, que circulou no ano passado, mostra o xeque Issa batendo violentamente em Poor, um mercador de grãos de origem afegã, e passando por cima dele com um carro.

Vários outros homens aparecem no vídeo ajudando o xeque, entre eles, um com o uniforme das forças de segurança dos EAU.

O incidente veio à tona depois que a rede de TV americana ABC mostrou cenas do vídeo, que foi levado para fora dos Emirados por um ex-sócio de Issa bin Zayed al Nahyan.

As informações são de que Poor havia perdido um carregamento de grãos pertencente ao xeque, no valor de US$ 5 mil (cerca de R$ 8.630). Ele sobreviveu ao espancamento, mas precisou de tratamento hospitalar.

Segundo o advogado do xeque, o fato de o julgamento ter sido realizado “é um sinal de que os EAU estão mostrando que todos no país podem ser levados diante da lei e julgados”.

Segundo o correspondente da BBC na região, Christian Fraser, o veredicto, no entanto, não deve agradar os ativistas que há anos criticam a situação dos direitos humanos no país.

Eles deverão argumentar que o resultado mostra, mais uma vez, que a família Real e os árabes emirenses em posição de poder estão acima da lei, afirma Fraser.

Os Emirados Árabes Unidos são uma federação de sete emirados, vários deles com com vastas reservas de petróleo e uma grande população de expatriados. Cada emirado é governado por uma família e os cidadãos têm direitos políticos restritos.

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