Terremoto no Haiti

Haitianos passam noite nas ruas entre corpos e escombros

Haitianos nas ruas de Porto Príncipe

Muitos moradores da capital têm medo de retornar às suas casas

Dezenas de milhares de haitianos passaram a segunda noite seguida nas ruas, após o forte terremoto da tarde de terça-feira que devastou a capital do país, Porto Príncipe, e que pode ter matado dezenas de milhares de pessoas.

Muitos moradores da capital, desabrigados ou com medo de novos tremores, se agrupavam em lugares abertos para passar a noite, muitos deles próximos a escombros e corpos.

De acordo com Andrew Gallacher, enviado especial da BBC a Porto Príncipe, a situação na cidade é de desespero, sem sinais de um esforço de resgate coordenado, com suprimentos médicos escassos e com ajuda humanitária apenas começando a chegar.

Clique Leia também: Ajuda humanitária começa a chegar ao Haiti

Gallagher relata ter visto pessoas, entre elas crianças, dormindo ao lado de corpos em decomposição durante uma visita a um hospital da cidade.

“Era um cenário de devastação. O hospital inteiro estava cheio de corpos, alguns cobertos, outros não. Líquidos escorriam para a rua. O cheiro era terrível, porque os corpos já estão começando a se decompor”, conta.

Outro repórter da BBC em Porto Príncipe, Nick Davies, afirma que o que mais chama a atenção na cidade, ainda mais que os escombros e a poeira, é a quantidade de corpos sob cobertores por todos os lados.

Clique Veja na BBC Brasil: Fotos revelam choque após o tremor

“Quando você anda pela cidade, ou passa de carro, pode ver esses corpos, com pessoas passando próximas, muitas delas confusas, completamente tomadas pelo que aconteceu a este país, o que aconteceu a esta cidade”, relata Davies.

Ele compara o ambiente na cidade a um cenário de filme de terror. “O barulho de pessoas chorando, de pessoas rezando, e o som de coros religiosos que podem ser ouvidos pelo ar, tornam a situação ainda mais surreal”, diz.

Busca por sobreviventes

Para executar este conteúdo em Java você precisa estar sintonizado e ter a última versão do Flash player instalada em seu computador.

Executar com Real Media Player OU Windows Media Player

A busca por sobreviventes sob os escombros entrou madrugada adentro, auxiliada pela chegada de ajuda material e de equipes de resgate enviadas por vários países.

Testemunhas afirmam que muitos tentavam escavar os escombros com as mãos ou com ferramentas simples para tentar encontrar vítimas que possam estar soterradas.

O sismo deixou um cenário de devastação em Porto Príncipe, destruindo o palácio presidencial, a sede da ONU no país e outros prédios importantes.

Clique Leia na BBC Brasil: Presidente do Haiti diz que milhares podem ter morrido em tremor

A Cruz Vermelha Internacional estima que até 3 milhões de pessoas tenham sido afetadas pelo terremoto.

O presidente René Preval, que escapou ileso após o desabamento do palácio presidencial, disse não ter uma estimativa oficial do número de mortos, mas que ouviu que eles podem chegar a 50 mil.

O terremoto de magnitude 7 na escala Richter, o pior no país em dois séculos, ocorreu às 16h53 de terça-feira (19h53 de Brasília), com epicentro a apenas 15 quilômetros da capital.

Segundo Roger Searle, professor do Departamento de Ciências Geológicas da Universidade de Durham, na Grã-Bretanha, a energia liberada pelo tremor foi equivalente à explosão de meio milhão de toneladas de dinamite.

Ajuda

Os primeiros aviões com ajuda, provenientes da Venezuela, da China e dos Estados Unidos, começaram a desembarcar no aeroporto de Porto Príncipe na noite desta quarta-feira. A China enviou uma equipe de 50 pessoas e cães farejadores para trabalhar nos resgates.

A missão brasileira de ajuda humanitária também desembarcou em Porto Príncipe na quarta-feira, segundo informações da Agência Brasil. Segundo o ministro da Defesa Nelson Jobim, a intenção é montar hospitais de campanha para ajudar no atendimento aos feridos.

Os militares brasileiros servindo na força de paz do Haiti já atuaram na desobstrução de vias e prestaram atendimento de emergência a feridos.

O país também prepara 10 mil kits com remédios de emergência, que devem ser enviados ainda nesta quinta-feira.

Equipes de outros países como Grã-Bretanha, França, Dinamarca, Cuba, México, entre outros, devem chegar à capital nesta quinta-feira.

Soldados da força de paz da ONU, que já tinham um papel-chave em manter a ordem pública no Haiti mesmo antes do terremoto, têm sido deslocados para controlar focos de intranquilidade, em meio a relatos de saques.

Clique Leia mais: Brasil envia aviões com alimentos e estuda mais tropas no Haiti

A organização não governamental Médicos Sem Fronteiras (MSF) relatou um “fluxo enorme” de pessoas feridas, muitas delas em estado grave, a clínicas improvisadas.

Segundo o porta-voz da MSF no Canadá, Paul McPhun, pacientes com “traumas graves, ferimentos nas cabeças, membros esmagados” têm buscado ajuda nas estruturas provisórias montadas pela organização.

Apesar disso, ele disse que os médicos da ONG têm apenas a capacidade de oferecer aos pacientes cuidado médico básico. Uma das clínicas de emergência da MSF desmoronou com o tremor e duas outras foram gravemente danificadas e não podem ser usadas.

Hans van Dillen, membro da MSF em Porto Príncipe, relatou que há “centenas de milhares de pessoas dormindo nas ruas porque não têm para onde ir”.

“Vemos fraturas expostas, ferimentos na cabeça”, disse ele em um relato publicado no site da MSF. “O problema é que não podemos encaminhar as pessoas para o atendimento médico adequado neste momento”, afirmou.

Em sua primeira entrevista desde o terremoto, o presidente haitiano, René Préval, descreveu o tremor da última terça-feira como uma "catástrofe".

Falando na quarta-feira pela manhã ao jornal americano The Miami Herald, Préval afirmou que o país foi destruído e que ele acredita que milhares de pessoas foram mortas, mas não deu números exatos.

"Temos que fazer uma avaliação", disse Préval, que acrescentou que a destruição é "inimaginável".

O premiê do país, Jean-Max Bellerive, disse à rede de TV americana CNN, também na quarta-feira, que o número de mortos pode chegar a 100 mil.

Tópicos relacionados

BBC © 2014 A BBC não se responsabiliza pelo conteúdo de sites externos.

Esta página é melhor visualizada em um navegador atualizado e que permita o uso de linguagens de estilo (CSS). Com seu navegador atual, embora você seja capaz de ver o conteúdo da página, não poderá enxergar todos os recursos que ela apresenta. Sugerimos que você instale um navegados mais atualizado, compatível com a tecnologia.