O português brasileiro no Carnaval

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

“Bom dia. Seu passaporte, por favor.”

“Aqui está.”

“Você é inglesa, não é?”

“Sim, sou.”

“Muito bem. Quanto tempo vai passar aqui?”

“Seis meses.”

“Está bem. Obrigado. Tchau.”

“Bom dia, obrigada.”

***

“A que horas parte o próximo ônibus de luxo para Salvador?”

“Parte às dez e quinze.”

“Queria um bilhete para este, se faz favor.”

“De ida ou de ida e volta?”

“Só de ida.”

“Muito bem. Agora, são 68 reais.”

***

“Tem uma mesa livre?”

“São quantos?”

“Somos só dois.”

“Temos esta mesa aqui perto da porta, ou aquela ali ao fundo.”

“Esta está bem. Traga o cardápio por favor.”

“Tome.”

***

Os diálogos acima reproduzidos foram extraídos de uma série de pequenos folhetos que, durante toda a semana que antecede o Carnaval, aí, e o Dia dos Namorados, aqui, vieram junto com o jornal que compro todos os dias, o Guardian, de tendência esquerdista-liberal.

Sob o título geral de “Línguas para o século 21”, os opúsculos ilustrados e com cerca de 22 páginas de texto começaram com o mandarim, na segunda-feira, prosseguindo sucessivamente pelo hindi, russo e, na quinta, com o português do Brasil, encerrando os trabalhos na sexta, com o espanhol da América Latina (“Buenas tardes.” “Buenas tardes, señorita. A sus órdenes.”).

Acompanhei com vivo interesse, uma vez que, apesar de todas as minhas desilusões de pobre pierrô abandonado (“É Carnaval?”, “Sim, cavalheiro, é Carnaval.”), continuo a manter altivo e sacudido meu abre-alas pelo desfile de fantasias a que chamamos de vida, skindô.

Não acho a menor graça em debochar de quem está tentando me ajudar a pegar um bom lugar num ônibus de luxo para Salvador e, uma vez lá, trio elétrico desfilando ou não, encontrar uma boa mesa num restaurante de Salvador que conte inclusive com cardápio.

Inevitável, no entanto, nesta época em que Momo é rei, e além do mais rei de tríduo, jogar o confete do deboche na boca de quem nos lê, atirar para o outro canto do salão a serpentina da galhofa e mirar nas costas alabastrinas da odalisca mascarada o esguicho gelado do lança-perfume do escárnio.

Quá, quá, quá! Pobres inglesas a caminho da capital baiana! Crentes que a língua fica paradona vendo os blocos e as escolas de samba passarem. O português do Brasil ginga, mexe, remexe, efervesce, queima, manda brasa e passa a perna em tudo e todos com suas reformas ortográficas e vernaculares a que insiste, como um pirata da perna de pau, lá no alto da popa, de chamar de “acordo ortográfico”. Mais uma vez, ela, a Europa, terá de se curvar diante de nós, depois de lhe passarmos a bola entre as pernas.

“É aqui que se realizará o jogo de futebol a fantasia ?”

“Aqui mesmo, senhorita. Quantas entradas quer?”

“Duas entradas.”

“Arquibancada, geral ou cadeira numerada?”