Filho de líder do Hamas diz a jornal que foi 'espião de Israel'

Mosab Hassan Yousef
Image caption Mosab Hassan Yousef já tinha causado polêmica ao se converter em 2007

Filho de um dos líderes do grupo militante palestino Hamas, Mosab Hassan Yousef afirmou em entrevista publicada nesta quinta-feira pelo jornal isralense Haaretz que trabalhou como espião para o serviço de inteligência Shin Bet, de Israel.

A entrevista antecede o lançamento da biografia do palestino de 32 anos, que se converteu ao cristianismo e hoje vive na Califórnia, nos Estados Unidos.

A afirmação de Mosab Hassan Yousef foi confirmada à BBC por um ex-diretor do Shin Bet. No entanto, o Hamas desmentiu as declarações e afirmou que trata-se de uma iniciativa com o objetivo de "difamar" o grupo palestino.

Yousef é filho do xeque Hassan Yousef, uma das principais figuras e co-fundador do Hamas na Cisjordânia, atualmente cumprindo pena de seis anos em uma prisão israelense.

Caso as declarações de Mosab Hassan Yousef sejam verdadeiras e ele realmente tenha participado de esforços para evitar ataques a Israel, o grupo palestino deve sair desmoralizado do episódio.

Um dos maiores motivos de orgulho do grupo é a sua disciplina ferrenha. O Hamas também se distancia da Autoridade Palestina por não concordar com a atitude de negociar a paz com Israel.

O caso de Yousef seria antigo, mas recentemente surgiram rumores de que o grupo teria sido traído, quando o líder Mahmoud al-Mabhouh foi assassinado em Dubai, em 20 de janeiro.

Conversão

Em 2007, Mosab Hassan Yousef se converteu ao cristianismo e se mudou para os Estados Unidos.

Image caption O xeque Hassan Yousef foi um dos fundadores do movimento palestino

Desde então, ele se dedicou a escrever o livro Son of Hamas ("Filho do Hamas," em tradução literal), que deve ser publicado nos Estados Unidos em breve.

"Ele, como centenas de outros que lutam contra o terror, forneceu informações muito importantes", disse Gideon Ezra, ex-vice-diretor do Shin Bet, que atualmente atua como parlamentar no Knesset pelo partido Kadima.

Ezra disse que o filho do xeque Hassan Yousef foi convencido a dar informações a Israel quando ele próprio cumpria pena de prisão.

O líder do Hamas Ismail Radwan afirmou que a reportagem do Haaretz é uma "difamação infundada" para atingir o pai de Yousef.

"O povo palestino tem grande confiança no Hamas e na sua luta e não vai ser enganado por essa difamação e essas mentiras sobre a ocupação de Israel", disse Radwan à agência de notícias AFP.

O jornalista do Haaretz que assinou a reportagem, Avi Issacharoff, afirmou na quarta-feira à BBC que, por ora, Yousef não está interessado em dar outras entrevistas.

Em 2008, a conversão de Yousef ao cristianismo chocou muitos muçulmanos na Faixa de Gaza. Ele foi muito criticado por sua apostasia (abandono da fé).

Fonte confiável

Mosab Hassan Yousef era considerado a fonte mais confiável do Shin Bet sobre a liderança do Hamas, o que lhe valeu o apelido de "príncipe verde", em referência à cor da bandeira do grupo e ao parentesco com um dos fundadores do movimento, segundo o Haaretz.

Um dos contatos israelenses do suposto espião afirmou ao jornal israelense que ele teria salvado muitas vidas e que apenas uma de suas informações teria valido "mil horas de reflexão dos maiores especialistas".

"A coisa mais extraordinária é que nenhuma das ações dele foi motivada por dinheiro", disse o agente, identificado no livro como "capitão Loai".

Na entrevista telefônica ao jornal, o próprio Yousef parece estar entusiasmado com a luta de Israel contra o Hamas.

"Queria estar em Gaza agora", teria dito Yousef, da Califórnia. "Eu vestiria um uniforme do Exército e me juntaria às forças especiais de Israel para libertar Gilad Shalit (refém israelense sob poder do Hamas)."

Gideon Ezra afirma que, para Israel, não é fácil se infiltrar no Hamas, mas que o país "faz o melhor que pode".

De acordo com Ezra, Israel não tem escolha a não ser cooptar militantes palestinos para evitar ataques. Ele afirma, entretanto, que a situação da segurança na Cisjordânia melhorou sob o controle da Autoridade Palestina, do ponto de vista israelense.

O parlamentar diz ainda que há muitos motivos para palestinos aceitarem atuar como informantes.

"Depende de cada pessoa. Você não pode forçá-los com ameaças. Se eles não quiserem, não há como forçá-los."

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