Primavera, outono, ictiologia

Não, não serei a princesa pop desta primavera que vem chegando.

Florissolar, lá vem ela. Cuidado. Descendo a escada rolante das estações pelo lado que sobe atropelando senhoras grávidas e velhinhos raquíticos com suas bengalas. A Primavera. Sua mão murcha no corrimão de plástico, seus olhos vesgos vazados, a bocarra escancarada babando, distribuindo quermesses murchas e farândolas fenecidas.

A Primavera. Distribuindo, a praguejar em seu matracar aviário, azagaias altissonantes e anorexias multicores, independente de quem queira ou não participar da esbórnia canalha da virada sazonal. Aqui, ali e acolá, por todas as partes da cidade – do país! – linfomas sarcásticos explodem em tonalidades bizarras. São bulbos bulímicos a balbuciar seu floris recados e hermesuras. São hiatos flatulentos empestando alvas paisagens até há pouco hibernais. Enésimas magentas cumprindo seu ciclo trimestral a vociferar estrumes, estames e estancas. Aliterada Primavera maiuscular. Como olvidar-te se todos os anos vens a me castigar com tua violeta violência as três estações onde, aí sim, nelas reino como princesinha pop e ergo prazeirosa cetros e cajados.

London Spring Fanchona Week, vade retro e não me procures nunca mais.

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É dessas coincidências que nem mesmo um Jung conseguiria sincronizar ou um Kant desconstruir. Babosa primavera dando seus ares de desgraça aqui, rancoroso outono se arrebentando nas paisagens daí.

Dieu, quel cauchemar!”, bradaria Jean-Claude Prouvot se, para estancar numa cidade só (o Rio por onde passei minha vida). “Eu vi, eu vi, eu vi”, exclamo, qual pássaro esdrúxulo, diante da tela do alfarrábio informatizado de meu computador. Eles, sempre eles, os peixes mortos aos milhares – não, milhões! – nas águas padecentes da Lagoa Rodrigo de Freitas. Sodade, meu bem, sodade. Todos os dias, nesta fanchonal estação britânica, são dias de banhar com lágrimas a nostalgia, outra Maria-sem-vergonha de nossa flora ora de mim distante, quiçá para vós equidistante (todos vós estais equidistantes de algo, alguém e alguma coisa), individualistas que sois.

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Por falar em estações: que papelão fez o Brasil nestes Jogos Olímpicos de Inverno em Vancouver, no Canadá, hem?

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Os peixes da Lagoa. Sempre e muito mortos os peixes da Lagoa Rodrigo de Freitas. Lembro-me da primeira mortandade de que participei sentiente com todos meus sentidos atentos. A célebre catástrofe de 1947, a Gripe Espanhola dos peixes, peixinhos e peixões (a cada ano são maiores, como nos maus filmes de ficção científica).

Enquanto por cá caem as folhas, por aí sobem de barriga para cima os vertebrados aquáticos, numa regular hecatombe ictiológica.

Tenho guardado, aqui em Kensington, no meu álbum de recordações, todos os recortes referentes às diversas explicações dadas ano após ano para a tragédia aquática por ictiologistas das mais diversas escolas e matizes, como se fossem eles azáleas e doridéias. Variam muito pouco, assim como pouquíssimo variam os sambas-enredo, as interpretações científicas dadas aos residentes daqueles trágicos e nefastos bairros (Ipanema, Leblon, Gávea, Humaitá etc) que cercam o fenômeno aquático-lacustre carioca.

Foram algas, foi o oxigênio, foram os capitalistas ianques, foi despacho para Iemanjá, foram os grandes laboratórios, foi o aquecimento (ou foi o arrefecimento) global, foram os pedófilos. Aos estudiosos do fenômeno único e contumaz nesta Terra de Deus nunca se lhes ocorreu tratar-se de auto-holocausto piscoso em que seus dramáticos personagens, a um sinal previamente combinado dado por seu líder, todos os peixes de todos os teores prenderiam sua respiração e, assim, mergulhariam no mundo das trevas, mas deixando, atrás de si, seus nomes indeléveis e habituais como os velhos bondes da história da cidade. Lembram-me, pobres peixes, essas seitas de fanáticos que esperam pelo final dos dias aguardando a chegada de um Ovni. Ou que, em qualquer hipótese, como qualquer suicida, deixam sua morte como legado de suas vidas breves e tristes deixando sua auto-imolação a nos culpar.

Não, não serei a princesinha pop da morte dos peixes da Lagoa Rodrigo de Freitas. Minuto de silêncio, já o fiz. E só.