Procura-se um governador

Lucas Mendes em ilustração de Baptistão.

Eliot Spitzer era uma promessa democrata. No fim do mandato de Obama talvez fosse o primeiro judeu com chances de chegar à presidência dos Estados Unidos. Currículo acadêmico brilhante, promotor incorruptível, boa pinta. Eleito com a maior percentagem de votos da história do Estado de Nova York, 69%, o governador tomou posse em janeiro de 2007.

Um ano depois, kaput, foi derrubado por um escândalo sexual envolvendo prostitutas caras, entre elas uma brasileira.

Brilho, currículo acadêmico e boa pinta não eram as virtudes do seu vice e sucessor David Paterson, mas ele tinha - e tem - uma história fascinante.

Descendente de escravas pelo lado materno e, jamaicano, pelo paterno, David Paterson é o primeiro governador negro de Nova York e o segundo governador cego do país. (O primeiro, Bob Riley, governou o Arkansas por 11 dias, em 75.)

Pelo governo de Nova York já passaram alguns dos políticos mais poderosos do país, democratas e republicanos. Na deficiência física, o negro cego só encontrou semelhante em Nelson Rockefeller, que também não conseguia ler. Disléxico.

David Paterson ficou cego com três meses de idade por causa de uma infecção que começou no ouvido. Apesar da cegueira, estudou história na Universidade de Columbia e fez direito na Hofstra, mas nunca conseguiu passar no exame estadual que dá licença para advogar no Estado de Nova York.

Filho de político foi seguir a carreira do pai e entrou em política pelas mãos do ex-prefeito Dinkins, também negro. Moderado, sem escândalos chegou à vice-liderança do Senado estadual, quando foi convidado por Eliot Spitzer, para ser o vice da chapa na campanha para o governo do Estado. A aceitação surpreendeu porque como provável líder do Senado estadual teria muito mais poderes do que como vice de um governador mandão como Spitzer.

Quarenta e oito horas depois que o New York Times revelou as conexões extramaritais do patrão, Paterson assumiu o governo do Estado em choque pela queda de um ídolo, a chegada de um estranho negro e cego e uma crise financeira/imobiliária no horizonte.

Com um legislativo incompetente e corrupto, o governador caiu nas pesquisas e se complicou na indicação da sucessora de Hillary Clinton. Foi grossa a forma que ele bloqueou a candidatura de Caroline Kennedy. O prestígio dele desabou.

Uma das principais contribuições de Paterson como político foi na campanha contra violência doméstica. Conseguiu ampliar a lei de proteção para incluir as mulheres que não são casadas. Foi aí que o cego tropeçou.

Seu assessor de maior confiança, David Johnson, foi acusado pela namorada de rasgar a fantasia dela de Halloween - com ela dentro - no ano passado. Chamou a polícia, que não viu marcas no corpo. Mesmo assim ela deu queixa na polícia.

O governador, um protetor das abusadas, se meteu na história e usou outros assessores para convencer a mulher a não levar a queixa adiante. Na véspera do julgamento, ele mesmo conversou com a queixosa. No dia seguinte, o caso foi encerrado pela ausência dela no tribunal.

Há uma semana, surgiram boatos de que um time de repórteres do New York Times investigava o caso. Quando isto acontece, a história quase sempre se repete: o investigado vai diante das câmeras e diz que é inocente, está feliz porque a investigação vai limpar o nome dele e que jamais renunciará. Em casa, faz as malas, sai à procura de novo emprego e contrata advogados para evitar prisão e multas.

Foi uma matéria do Times que derrubou o governador Eliot Spitzer em apenas dois dias. A reportagem foi devastadora. Além de afastar David Johnson, o governador aceitou as demissões de dois assessores e do chefe da polícia estadual. O drama foi agravado pela acusação de uma comissão de ética num caso completamente diferente: ano passado, ele pediu aos Yankees e recebeu três ingressos, de 425 dólares cada, para assistir as finais de baseball com o filho e um amigo.

Num Estado onde milhões somem pelos ralos dos contratos, a carreira de Paterson vai ser enterrada por mil duzentos e setenta e cinco dólares. Ele até pagou pelos ingressos depois que a imprensa começou a fazer perguntas, mas, neste jogo, um passe errado custa o campeonato. Além do risco do desemprego, Paterson está sujeito a multas de quase cem mil dólares pelos ingressos.

Se for derrubado, ou, mais provável, se renunciar, quem será o sucessor? O atual vice foi nomeado por ele no meio de uma outra crise. Não foi eleito. Num período de três anos e da pior recessão desde a Grande Depressão, Nova York pode ter três governadores diferentes. E, acredite, pode até melhorar.