Do arco e flecha ao laptop: Na floresta verde, tapete vermelho para os convidados

Image caption Os índios usam a internet como meio de auto-afirmação cultural e política

Continuando viagem a aldeia dos Suruí, em Rondônia, desde muito cedo botei o pé na estrada – e quanta estrada.

Por um desses mal-entendidos de roteiro, fui pego de surpresa ao desembarcar em Porto Velho, após uma conexão em Brasília, e descobrir que ainda estava a sete ou oito horas de viagem de carro até a cidade de Cacoal, que servirá de base para as gravações com os indígenas.

A BR 364 corta a paisagem verde passando por cima de rios e do lago criado pelas águas da hidrelétrica de Samuel, que gera parte da energia de Porto Velho. É uma paisagem encantadora, mas igualmente triste para quem é capaz de decodificar os rastros da ação do homem sobre o meio ambiente.

Onde antes era floresta, troncos de árvores mortas hoje espetam para fora do lago formado pela represa, formando os chamados “paliteiros”.

Ao largo das frondosas áreas de plantio de soja e arroz e de pastagem por onde a estrada passa, aparecem solitárias, aqui e ali, as palmeiras de babaçu, que acabam sendo deixadas de pé porque resistem aos dentes das serras elétricas.

“Quarenta etnias indígenas desapareceram por conta da construção dessa estrada”, frisou a porta-voz da associação indígena Kanindé, Ivaneide Bandeira Cardozo– ela que, junto com o representante da ONG Equipe de Conservação da Amazônia (ACT Brasil) Frederico Schlottfeldt, forma a agradável companhia neste estirão de asfalto.

“Foi construída com financiamento do Banco Mundial e foi a única vez em que o banco pediu desculpas publicamente por uma obra que custeou”, prossegue Ivaneide.

Vencemos os 450 quilômetros até Cacoal e tocamos, no sentido geográfico e simbólico, o coração da realidade desta terra.

Conversamos sobre movimento indígena e as diferentes culturas indígenas, conflitos fundiários, grilagem e desmatamento, mecanismos de desenvolvimento limpo e programas de reflorestamento e sequestro de carbono. E muito mais.

Questões que os Suruí estão ajudando a expor para o mundo com ajuda de tecnologia de ponta. É um permanente diálogo entre dois mundos.

Aqui e ali, Ivaneide pontua a conversa contando as “aventuras” dos Suruí no mundo dos “brancos”, como ela diz. Do estupor de alguns membros da etnia diante das brancas paisagens dos alpes suíços a uma prazerosa xícara de chá com o príncipe Charles em Londres. Uma intensa de viagens internacionais para angariar apoio às suas causas.

Mas são assuntos para outros posts. Deixemos de lado o mundo dos brancos, por ora. Nos próximos dias, os anfitriões são eles; eu e o leitor, os convidados.