Um líder indígena ‘bem na foto’

 Almir, líder dos Suruí
Image caption Líder dos Suruí, Almir demonstrou notável talento político

"Sua câmera é bem pequeninha. Tenho medo dessas coisas assim."

Almir, o líder dos Suruí, me observa de lá fazendo cara de desconfiança. Posicionei-o para nossa entrevista a alguns metros de distância, o que no plano fechado da minha lente cria um agradável efeito de fundo, e no plano aberto mostra a grama verdinha e uma maloca indígena típica dos Suruí.

Sei que sua declaração é só charme. Ora, se há um povo indígena que percebeu muito bem a utilidade desses pequenos <i>gadgets</i> e faz uso deles de maneira pioneira e criativa, esse povo se chama Suruí. Mostrar isso não é justamente o propósito da minha visita aqui?

"Imagine", respondo. "Nisso sei que quem dá aula são vocês."

Almir me recebeu na sede de sua associação, Metareilá, em Cacoal, com uma apresentação de Powerpoint feita sob medida para o interlocutor que o escuta pela primeira vez. De um laptop pequeninho, que fez o meu trombolho passar vergonha, ele projetou as imagens do desmatamento ao redor da reserva indígena Sete de Setembro na parede de sua sala.

Internet, Picasa, Google Earth, todas essas são ferramentas de que ouvi falar uma porção de vezes conversando sobre os projetos dos Suruí.

E o xodó deles já nem é mais o computador ou o laptop, e sim os telefones que tiram fotos e enviam por internet. Um carregamento desses deve chegar em breve e permitir aos indígenas postar fotos do desmatamento na internet em tempo real, poupando o tempo do download e do envio.

Os Suruí não são os únicos nem os primeiros a utilizar a tecnologia moderna em seu benefício. Há seis anos, editei um programa de TV sobre os Kamayurá, que vivem no Xingu, e entre os diversos personagens havia um que era cinegrafista e contava como essa tecnologia vinha ajudando os indígenas a registrar suas tradições orais.

Image caption Almir comentou sobre a câmera no momento da gravação

O que diferencia os Suruí é a maneira criativa e pioneira, para repetir minhas próprias palavras, de integrar estas tecnologias a um plano de desenvolvimento sustentável de longo prazo.

Algo que tem sido creditado à visão de longo alcance de Almir. Curiosamente, o clã dele é responsável, entre o povo Suruí, por tratar dos assuntos ligados à guerra, à diplomacia e ao meio-ambiente. Ao ‘trocar o arco-e-flecha pelo laptop’, ele revolucionou os três campos de uma só vez.

Demonstrou um notável talento político, e se o leitor me perdoa a ousadia, inclusive certa qualidade de estadista. E lá nas prateleiras da Associação Metareilá estão reportagens e reportagens, a grande maioria publicadas em jornais estrangeiros, sobre Almir e a luta ambiental dos Suruí. Inclusive uma edição da revista <i>Época</i> que o coloca entre os cem brasileiros mais influentes do país.

No fim de nossa entrevista, para efeito de <i>making of</i>, Fred, da ONG ACT Brasil, nos sugere que tiremos uma foto conjunta.

"Se até o Príncipe Charles tirou uma foto com o Almir, eu também quero", disse Fred, referindo-se a uma imagem de Almir com o príncipe herdeiro britânico exposta na sala do líder indígena.

Almir, que por acaso deve ter sabido de minhas andanças pelo mundo cobrindo as viagens de outro lider, o presidente Luís Inácio Lula da Silva, não perdeu a piada.

"Então vamos. Se até o Lula tira foto com o Pablo, então eu também quero."

Sei, sei. Pode ter sido só brincadeira, mas a comparação com Lula me deixou com a pulga atrás da orelha. E me diverti pensando que pode ter sido apenas um deslize da modéstia de Almir, tentando esconder ambições maiores.