Polêmica sobre tese da savanização da Amazônia leva a ação de cientista contra jornal britânico

Área desmatada na Amazônia
Image caption Relatório do IPCC alertava para suposto risco à vegetação amazônica

Um cientista britânico entrou nesta semana com uma ação contra o jornal The Sunday Times por causa de uma reportagem publicada em janeiro com contestações a dados do painel da ONU para o clima sobre as consequências das mudanças climáticas para a floresta amazônica.

A ação é o último desdobramento de uma grande polêmica entre cientistas sobre os dados publicados no último relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC).

O IPCC tem sido criticado por supostamente ter publicado informações incorretas no relatório divulgado em 2007.

Muitos cientistas, porém, afirmam que as incorreções não alteram as conclusões gerais sobre as consequências das mudanças climáticas e acusam os críticos de tentar minar o consenso de que as mudanças no clima são consequência da ação humana e sobre a necessidade de se conter o aquecimento global.

A reportagem publicada em janeiro pelo Sunday Times afirmava que o relatório do IPCC havia cometido um erro ao afirmar que 40% da floresta amazônica poderia se transformar em vegetação de savana caso houvesse uma redução na quantidade de chuvas na região em consequência das mudanças climáticas.

O jornal observava que o dado havia sido retirado de um relatório de autoria de dois ativistas da ONG ambientalista WWF, supostamente sem base científica.

Duas semanas antes, o jornal já havia levado o IPCC a se desculpar por ter se baseado também em um relatório do WWF para afirmar que as geleiras do Himalaia poderiam desaparecer até 2035.

Crítica

O cientista Simon Lewis, da Universidade de Leeds, na Grã-Bretanha, diz que decidiu entrar com uma ação contra o Sunday Times na Comissão de Queixas contra a Imprensa após reclamar diretamente ao jornal, sem sucesso, por ter sido citado na reportagem com declarações que supostamente apoiavam a tese de que a informação do relatório do IPCC estava incorreta.

“A verdade é que a informação do IPCC é correta, a Amazônia é vulnerável a reduções na quantidade de chuvas, mas o IPCC cometeu um erro ao fazer referência a um relatório de uma ONG ambiental em lugar do estudo científico original”, disse Lewis em entrevista por e-mail à BBC Brasil.

Para ele, “alguns pequenos erros no relatório de 3.000 páginas do IPCC não mudam os fatos básicos sobre as mudanças climáticas, de que os humanos estão provocando um impacto sobre o sistema climático e que mais mudanças podem provocar graves problemas sociais, econômicos e ambientais para muitas pessoas no mundo”.

Lewis diz acreditar que esses pequenos erros têm sido usados por pessoas que se opõem aos consensos científicos para atacar o IPCC.

A BBC Brasil entrou em contato com o Sunday Times para perguntar a posição do jornal em relação às reclamações de Lewis, mas não obteve uma resposta até o fechamento deste texto.

Polêmica reforçada

A polêmica em relação às informações do relatório do IPCC sobre as consequências das mudanças climáticas para a Amazônia foi reforçada no início de março com a publicação de um estudo da Universidade de Boston, encomendado pela Nasa, a agência espacial americana, sustentando que a floresta amazônica é mais resistente à seca do que indicavam estudos anteriores.

A pesquisa, publicada na revista especializada Geophysical Research Letters, supostamente reforçava as ideias contrárias à tese da savanização da Amazônia, ao afirmar que imagens de satélites não haviam mostrado diferenças na intensidade do verde da floresta entre períodos de seca e de chuvas mais intensa.

Em resposta, um grupo de 19 cientistas, especialistas em clima e floresta amazônica, publicou uma carta de contestação na qual afirmavam que as imagens de satélite não necessariamente tinham relação com o que estava realmente acontecendo com as árvores no solo.

Os cientistas dizem que a pesquisa da Universidade de Boston é útil para ajudar no entendimento do comportamento da floresta, mas argumentam que ela foi utilizada de maneira incorreta para tentar contestar as conclusões do IPCC.

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