Sanções podem provocar revolta popular no Irã, diz Amorim

O ministro das Relações Exteriores Celso Amorim. Foto AP
Image caption Amorim disse que penalidades podem acabar 'radicalizando' o país

O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, voltou a criticar nesta terça-feira a imposição de sanções comerciais ao Irã como resposta a um suposto desrespeito às regras internacionais de não-proliferação nuclear e disse que as medidas podem provocar "revolta".

Para Amorim, sanções desse tipo costumam ter um efeito mais expressivo sobre as camadas mais pobres da população.

“O resultado é que as sanções vão crescendo e isso vai gerar uma revolta na população”, disse o ministro durante uma audiência pública no Senado Federal, que durou mais de quatro horas.

O ministro acrescentou que as penalidades comerciais a Teerã têm o potencial de unir governo e oposição em torno de um mesmo discurso crítico ao Ocidente, o que pode acabar “radicalizando” o país.

“A tendência é governo e oposição ficarem juntos em uma posição de intransigência”, disse o ministro.

Amorim discordou da avaliação do senador Arthur Virgílio (PSDB-AM) de que o Brasil esteja agindo de uma forma “ingênua” diante do programa nuclear iraniano.

“A posição brasileira não vem de nenhuma ingenuidade. O Irã deu passos em falso e paga um preço por esse pecado original. Mas essas questões estão resolvidas”, disse o ministro, referindo-se ao fato de o governo iraniano, inicialmente, não ter oferecido à agência atômica (AIEA) todas as informações sobre seu programa nuclear.

“Devemos julgar a situação em função dos fatos que conhecemos, e não de alegações”, disse o ministro.

Reunião

A aplicação de sanções comerciais contra o Irã deverá ser o principal tema de uma reunião na próxima semana, em Washington, com líderes de diversos países, incluindo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Havia a expectativa de que as sanções seriam aprovadas ainda no mês de abril, mas os países que integram de forma permanente o Conselho Segurança das Nações Unidas não chegaram a um consenso sobre o assunto.

As negociações com o Irã estão paralisadas desde o final do ano passado, quando uma proposta da agência atômica, que previa o enriquecimento do urânio iraniano em outros países, foi rejeitada por Teerã.

A posição do governo brasileiro é de que ainda há “espaço” para a continuidade do diálogo com o Irã.

‘Alegações’

Amorim disse ainda que a posição brasileira é de que o Irã “precisa cooperar”, mas segundo ele, “é mais difícil ter de provar que não está se fazendo alguma coisa”.

“É mais difícil provar que não tem do que o que se tem. No Iraque, no final das contas, não tinha nada (de armas nucleares)”, disse o ministro.

Questionado pelo senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) de que o Irã estaria descumprindo o tratado internacional de não-proliferação, Amorim disse que “o que existe contra o Irã são alegações”.

Ainda de acordo com o chanceler brasileiro, essas alegações são apenas “estudos” produzidos por alguns países, e que “nem sempre” esses documentos são totalmente divulgados.

Ilusões

Segundo o chanceler, o sucesso das negociações depende também de uma maior “flexibilidade” de Teerã e que o governo brasileiro “tem dito” isso ao governo iraniano.

“O Irã tem que demonstrar flexibilidade. Ele também não pode se isolar”, disse Amorim.

O ministro brasileiro disse ainda que o governo brasileiro irá aplicar as sanções comerciais ao Irã se essa for a decisão do Conselho de Segurança da ONU.

“Se houver sanções, mesmo que a gente não concorde com elas, isso vai afetar a cooperação econômica do Brasil com o Irã”, disse Amorim.

“Temos dito isso a eles com clareza. Espero que eles vejam que é necessário negociar”, acrescentou.