Carta mostraria que Bento 16 resistiu a afastar padre acusado de abuso

A carta de 1985 com a assinatura de Joseph Ratzinger
Image caption O Vaticano teria confirmado a assinatura do cardeal Ratzinger na carta

Uma agência de notícias divulgou nesta sexta-feira uma carta, datada de 1985, supostamente assinada pelo papa Bento 16 que envolve o pontífice em mais um caso de abuso sexual cometido por padres católicos contra crianças.

A agência de notícias Associated Press afirmou que teve acesso à carta, assinada pelo então cardeal Joseph Ratzinger, posto ocupado por Bento 16 antes de ser papa. Na missiva, ele resiste à ideia de destituir das funções sacerdotais o padre americano Stephen Kiesle, acusado de abuso sexual.

A AP afirmou que o Vaticano confirmou a assinatura do cardeal na carta.

Segundo a agência, o então cardeal Ratzinger afirmou na carta que o "bem da Igreja universal" precisava ser levado em conta em um ato como a destituição das funções sacerdotais.

No entanto, a agência informou que o porta-voz da Vaticano, reverendo Federico Lombardi, disse que "não é estranho que existam documentos com a assinatura do cardeal Ratzinger".

"A assessoria de imprensa não acredita que seja necessário responder a cada um dos documentos tirados de contexto, referentes a situações legais particulares", afirmou.

A Igreja Católica vem sendo abalada por várias acusações de abuso vindas de diversos países europeus. As acusações são referentes a casos ocorridos há décadas na Alemanha (país natal do papa), Irlanda, Suíça, Holanda e Áustria.

Três anos

Image caption Stephen Kiesle foi preso em 2004 por molestar uma menina

Segundo a AP o padre Kiesle foi sentenciado a três anos de liberdade condicional em 1978 por conduta indecente com dois meninos em San Francisco.

A AP informou que a diocese de Oakland recomendou a retirada de Kiesle em 1981 mas ele não deixou de ser sacerdote até o ano de 1987.

O cardeal Ratzinger assumiu a Congregação para a Doutrina da Fé, que lida com os casos de abuso sexual, em 1981.

A AP afirma que a carta, escrita em latim, mostra o cardeal Ratzinger afirmando que a destituição de Kiesle teria um "significado grave" e precisaria de uma análise cuidadosa.

Ratzinger ainda recomendaria na carta "o máximo de cuidado paternal possível" para Kiesle.

Kiesle foi sentenciado a seis anos de prisão em 2004 depois de admitir ter molestado uma menina em 1995. Ele atualmente tem 63 anos e está registrado na lista de criminosos da Califórnia.

Encontro com vítimas

Image caption O papa já tem se encontrado com vítimas de abusos

AInda nesta sexta-feira, o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, afirmou que o papa Bento 16 deseja se encontrar com vítimas de abusos sexuais cometidos por padres católicos.

Em uma entrevista à rádio do Vaticano, Lombardi afirmou que muitas vítimas estariam buscando ajuda moral, e não financeira.

"O papa escreveu para dizer que está disponível para novos encontros" com as vítimas, disse ele.

"Além da atenção que devemos dar às vítimas, precisamos buscar uma cooperação com as autoridades penais e judiciais relevantes, de acordo com as leis de cada país."

"A transparência e o rigor se impõem como necessidades urgentes", finalizou.

O papa Bento 16 já encontrou vítimas de abusos tanto no Vaticano como durante visitas aos Estados Unidos e à Austrália.

Em março, Bento 16 escreveu uma carta aos irlandeses pedindo perdão pelos abusos e dizendo que “erros sérios” foram cometidos por bispos.

Mas o Vaticano também tem tentado minimizar a crise, acusando a imprensa de exagerar o problema.