Presidente deposto do Quirguistão diz temer pela própria vida

Kurmanbek Bakiyev durante entrevista
Image caption Bakiyev afirma que teme ser morto caso volte à capital

O presidente deposto do Quirguistão, Kurmanbek Bakiyev, forçado a deixar a capital do país em meio a protestos violentos, afirmou nesta sexta-feira à BBC que teme ser morto se voltar à capital do país, Bishkek.

Bakiyev que deixou a capital, Bishkek, na quarta-feira, insistiu que ainda é o presidente legítimo e não pretende renunciar. Ele acrescentou que a revolta que o obrigou a deixar a capital foi parte de uma operação bem organizada, que conta com envolvimento de estrangeiros, mas não especificou quais países estariam envolvidos em sua opinião.

"Se eu aparecesse em Bishkek hoje, eu não estaria seguro. Eu seria morto ou então eles me atirariam à multidão falando 'Este é o homem que deu ordens à polícia para abrir fogo; ele é o responsável pelo derramamento de sangue'", disse Bakiyev.

O presidente deu entrevista ao repórter da BBC Richard Galpin falando de um local não revelado em Jalalabad, no sul do país, e contou que os opositores atacaram seu gabinete durante os protestos de quarta-feira.

O Quirguistão está cumprindo um dia de luto oficial pelas mais de 70 pessoas mortas na revolta dos últimos dias. O país está sob um governo interino, liderado pela líder da oposição e e ex-ministra das Relações Exteriores, Roza Otunbayeva.

Otunbayeva afirmou que Bakiyev teve a oportunidade de "deixar o país".

"Vamos garantir a segurança para ele, apenas sua segurança pessoal, se ele renunciar", afirmou.

Mas, em sua entrevista, Bakiyev afirmou o governo interino não é capaz de restaurar a estabilidade no país e, por isso, ele não vai renunciar.

"Não é realista. Por que eu devo renunciar, apenas por causa de um pequeno grupo de líderes de oposição que usou armas de fogo para tomar o governo? Sei que a maioria das pessoas no meu país não quer que eu renuncie", afirmou.

Seguidos

Image caption Quirguistão teve na sexta-feira primeiro funeral para vítimas da revolta

O repórter da BBC Richard Galpin afirmou que, para evitar que fosse seguido no caminho para o encontro com Bakiyev, ele foi levado em veículos diferentes pelos seguranças do presidente para uma nova casa mais simples, em Jalalabad, uma pequena cidade no sul do país que é a base de poder de Bakiyev.

Bakiyev afirmou que temia que os responsáveis pela revolta na capital estivessem tentando encontrá-lo e acrescentou que seu gabinete em Bishkek foi alvejado por balas na quarta-feira, numa tentativa de assassinato.

O presidente afirmou que vai permanecer no país para evitar uma guerra civil que pode ocorrer devido à grande divisão entre o norte e sul do país e acrescentou que ele e seus ministros continuam trabalhando para estabilizar o Quirguistão.

Mas, a líder do governo interino, Roza Otunbayeva, acusou os partidários de Bakiyev de orquestrar "incidentes de violência" nos arredores da capital.

Ela afirmou que "várias bombas" foram colocadas em Bishkek.

Rússia

A Rússia parece ter dado apoio à liderança de Otunbayeva e ela já conversou por telefone com o primeiro-ministro russo Vladimir Putin.

O vice-chefe do governo interino, Almazbek Atambayev, foi a Moscou "para negociar ajuda econômica", de acordo com uma declaração do governo.

Rússia e Estados Unidos têm bases aéreas no Quirguistão e a presença dos dois foi motivo de debate recentemente no país.

A base americana em Manas é importante para as operações dos Estados Unidos no Afeganistão, mas o prazo do arrendamento deve terminar em julho.

Bakiyev disse à BBC que a oposição quer fechar esta base.

"Eles querem fechar, mas eu acho que isto é um erro. É realmente vital, não apenas para os Estados Unidos, mas também para o Quirguistão e para toda a Ásia Central. Pois a situação no Afeganistão é um problema, não apenas para os Estados Unidos, mas também para o mundo todo", afirmou.