Temendo saques, moradores do Morro do Céu resistem em deixar suas casas

Aterro próximo ao Morro do Céu - foto: Caio Quero
Image caption Aterro sanitário próximo ao Morro do Céu

Com as casas interditadas desde a semana passada devido às chuvas que atingiram o Rio de Janeiro, vizinhos de um aterro sanitário que fica a poucos quilômetros do Morro do Bumba, em Niterói, resistem em deixar suas casas por medo de que seus pertences possam ser roubados e reclamam de falta de garantias por parte do governo.

Eles vivem nos arredores do Aterro Controlado do Morro do Céu, um lixão com 200 mil metros quadrados de área onde parte dos resíduos da cidade são depositados.

Assim como o Morro do Bumba, onde funcionava um antigo aterro, a região do Morro do Céu é considerada uma área de risco, o que fez com que o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, determinasse, no último sábado, a retirada "imediata" de todos os moradores da região.

Apesar do perigo, parte dos moradores vizinhos ao aterro afirmam não querer deixar suas casas antes de receberem indenizações e garantias de que seus bens estarão a salvo.

Este é o caso de José Luiz Cruz Corrêa, que vive em uma casa de dois quartos, sala, banheiro, cozinha e quintal com a mulher e os dois filhos.

Vizinho de uma casa que foi destruída por um deslizamento de terra, ele conta que sua residência foi interditada pela Defesa Civil na manhã da última terça-feira.

Apesar da faixa de plástico que foi colocada na frente da casa, Corrêa continuou dormindo lá, enquanto sua mulher e os filhos estão hospedados com sua sogra.

"Se a gente desocupar, vão ocorrer saques", diz Corrêa, que diz não ter outro lugar para ir e resiste em ir para um dos abrigos das autoridades.

"Quando a poeira assentar, vou estar no CIEP (escolas estaduais onde estão alguns desalojados), minha casa estará vazia. Vai acontecer o que?"

Aterro

A região convive com o aterro desde 1983, quando muitos dos atuais moradores já estavam lá.

Image caption José Luiz Cruz Corrêa continua vigiando sua casa próxima ao aterro sanitário

Correa reclama que a lama que tomou a rua após as últimas chuvas está "contaminada" pelo lixão e que, pela manhã, é comum se sentir um forte odor de gás vindo do aterro.

Ele diz que há cerca de quatro anos os moradores foram procurados pelo governo para que as casas fossem desapropriadas, mas a medida acabou não saindo do papel.

Outra que não quer deixar sua casa é Lucia Pedrosa, que mora no local com a família antes mesmo que o lixão fosse instalado.

Desconfiada, ela diz que só sairá da residência com "a indenização nas mãos" e também afirma temer que seus bens sejam saqueados se a casa ficar vazia.

"Quem vai pagar minha geladeira, meu computador?"

Sua filha, Ana Cristina Pedrosa Zago, que morava nos fundos, deixou sua residência na sexta-feira e foi para a a casa de parentes por se sentir mais ameaçada pelos deslizamentos

"O pessoal mandou sair, mas não deu nenhuma garantia para nossos bens", diz.

Segundo ela, após reclamações dos moradores, as autoridades teriam prometido fazer uma ronda policial na região para evitar saques.

"Mas meu pai ficou acordado até 5h da manhã de sábado e não apareceu nenhuma ronda", diz.