Agora eu vou de Botox

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Cansei minha beleza. Não aguento mais ser um livro aberto. Ficou insuportável essa história de lerem na minha cara tudo que estou sentindo. Na verdade, bem lá no fundo, eu vim para a Inglaterra em busca da arte de praticar a inexpressão facial. Tudo foi em vão. Dos moleques na rua de meu bairro, às moças em que, no metrô, eu lançava olhares pouco apropriados, todos sabiam exatamente o que eu estava achando e sentindo. Na mesa de pôquer, nem falar. Tanto fazia eu estar com um par de 7 quanto com 4 azes. Blefar? Esquece. Deixei a jogatina e continuei na ausência de lucro, já que a ausência de expressão, ou mesmo adotar uma que fosse neutra, me era e continua a ser absolutamente impossível.

Os jornais, no entanto, vez por outra, me dão boas notícias. Fico sabendo agora que o popular Botox, essa toxina botulínica para uso estético (em rugas de expressão), pode também paralisar os sentimentos das pessoas. Formidável. Sentir sempre foi meio complicado e causador dos maiores mal entendidos. Eu sinto muito, mas a humanidade sente muito. E não é só com deslizamentos no Brasil ou terremotos na China. A humanidade sente o passar dos anos, se olha no espelho, vê a rude e enrugada passagem do tempo estampada no rosto e, em sendo a pessoa em questão ao menos remediada, no dia seguinte é médico especialista e algumas injeçõezinhas ditas estetizantes aqui e ali. Na testa, em volta dos olhos, da boca, onde o freguês quiser. O senhor doutor está ali para isso mesmo. Essa é sua vida.

A ciência, no entanto, é uma parceira de pôquer indecifrável e inesperada. De repente, quando você jura que vai levar a mesa e a ficharada toda, ela abre o jogo e você – eu, nós – só faltamos cair para trás.

Agora mesmo uma autoridade botóxica (neologisemos, irmãos, neologisemos, para manter o espírito jovem e saudável), o psicólogo David Havas, da afamada Universidade de Wisconsin-Madison, nos Estados Unidos, acaba de realizar uma pesquisa a fundo sobre o assunto e, em órgão não-especializado, um jornal dominical, revelou que não são apenas as rugas que o Botox apaga. A miraculosa droga leva embora também emoções, empatias, interesses, quase tudo aquilo que um rosto pode revelar. Morreu o amigo? O Botox suaviza o choque. Sim, claro, podem ficar chateados com você, mas não estará demonstrando nenhum sentimento.

Como já foi dito acima, o sentimento atrapalha a vida da gente. “Tenho apenas duas mãos e o sentimento do mundo”, confessou o poeta Carlos Drummond de Andrade em verso célebre, citado por muita gente boa, caindo de expressões. Tivesse o nosso vate maior pegado a onda do Botox e ficaria apenas com duas mãos e nenhum sentimento, ao menos demonstrado exteriormente. Algo bem dos poetas, principalmente dos poetas mineiros. Talvez isso fizesse com que parassem de roubar os óculos da estátua do homem, sentadão lá no banco da avenida Atlântica, no Posto 6.

De qualquer forma, vaidades já não as tenho mais. Sentimentos, peco por excesso. Todos facilmente reconhecíveis e estampados na cara que me sobrou neste mundo. Minha cara, minha palma. Chegou. Minhas economias vão para umas boas aplicações de Botox.