Para pesquisador, Ciro Gomes já vinha se tornando um ‘nanico’

Ciro Gomesf (Foto: ABr)
Image caption Ciro continuaria caindo nas pesquisas, diz o analista político

A saída do deputado federal Ciro Gomes do cenário eleitoral, confirmada em reunião da executiva nacional do PSB nesta terça-feira, apenas acelera um processo que já estava em curso, segundo o cientista político Alberto Carlos Almeida.

De acordo com ele, Ciro vem perdendo densidade eleitoral “há algum tempo” e “tendia a se tornar um nanico”.

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“Se ele não saísse agora, iria continuar caindo. A diferença é que agora ele cai de 8% para zero, enquanto que, se mantivesse a candidatura, ele iria cair aos poucos”, diz o especialista em pesquisas eleitorais, autor do livro A Cabeça do Eleitor.

Na avaliação de Almeida, o perfil do eleitor que até agora manifestava intenção de votar em Ciro indica uma preferência por um candidato regional, cujo eleitor não quer votar na oposição, mas também não se sente confortável com a candidatura da ex-ministra Dilma Rousseff.

Leia abaixo a entrevista do cientista político à BBC Brasil.

BBC Brasil - O deputado federal Ciro Gomes vem caindo nas pesquisas de intenção de voto, chegando a cerca de 8%. Até que ponto a retirada de seu nome da disputa realmente afeta o cenário eleitoral?

Alberto Carlos Almeida - Como você mesmo disse, o Ciro Gomes já foi mais alto e vem caindo. Se ele não saísse agora, ele iria continuar caindo. O rebuliço que a gente vê em torno desse assunto, isso diz respeito ao mundo político, as coisas que ele fala, se vai atacar fulano, etc, isso é um lado da história. O outro, mais da opinião pública, mostra que ele já vinha caindo, que ele iria continuar caindo.

A diferença é que agora ele cai de 8% para zero, enquanto que, se mantivesse a candidatura, ele iria cair aos poucos. O deputado Ciro Gomes vem perdendo a densidade eleitoral dele há algum tempo e tendia a se tornar um nanico.

BBC Brasil - Quem é esse eleitor do Ciro hoje, na sua avaliação?

Almeida - O Ciro é um candidato originário do Nordeste. É de lá que vem a maior proporção de votos dele. São eleitores que gostariam de votar no governo, ou seja, mais identificados com o governo Lula. O Serra é muito conhecido e eles mesmo assim não votam no Serra. Eles preferem algum candidato do governo que não seja a Dilma. E tudo isso no Nordeste.

Na realidade, o que vem acontecendo com o Ciro é que seus votos vêm sendo dizimados no Nordeste. E esse processo de ter os votos dizimados, como eu disse, iria continuar. O perfil dele é esse: um candidato regional, cujo eleitor não quer votar na oposição, prefere o governo, mas não se sente tão confortável assim com a candidatura Dilma.

BBC Brasil - A avaliação do último Datafolha, no entanto, é de que o ex-governador José Serra é o mais beneficiado em um cenário sem Ciro Gomes. O senhor discorda?

Almeida - Existem duas leituras das pesquisas para um cenário sem Ciro Gomes. Uma leitura é essa que você mencionou, é uma leitura feita por dentro de uma mesma pesquisa. Pergunta-se a intenção de voto com o Ciro e sem o Ciro. E sem o Ciro, o Serra cresceu. Mas nesse caso, você não está avaliando pesquisas diferentes no tempo.

Quando você avalia as pesquisas no tempo, várias do Datafolha, por exemplo, de novembro até hoje, você vê o Ciro caindo em cada pesquisa e a Dilma crescendo. Na realidade, os votos que saem do Ciro têm ido para a Dilma. Eles vão para o Serra em um exercício metodológico dentro de uma mesma pesquisa. O nome do Ciro está no disco, e quando você tira, ele menciona o primeiro nome mais lembrado, que é o Serra.

BBC Brasil - Como o senhor avalia essas diferenças entre as pesquisas de intenção de voto, inclusive com diferenças acima da margem de erro? É reflexo de um eleitor ainda volátil?

Almeida - Olha, você pode ter diferenças... A pesquisa do Datafolha, por exemplo, é muito rápida. É feita em dois dias, e não em cinco dias, como em geral são as pesquisas em domicílio. Além disso, a pessoa que é encontrada no domicílio muitas vezes tem menos informação política do que aquelas que são encontradas em pontos de fluxo. E o Datafolha, para fazer em dois dias, faz a pesquisa em pontos de fluxo. As diferenças podem se dever a isso.

BBC Brasil - Uma diferença de até dez pontos, então, não deve ser motivo de preocupação?

Almeida - Não, não... Depois o Datafolha vai começar a fazer pesquisas um pouco mais lentas e as pesquisas vão convergir.

BBC Brasil - Estamos em uma fase em que muitos eleitores não sabem nem que haverá eleições este ano. Até onde vai o peso das pesquisas de opinião em um cenário como esse?

Almeida - Ninguém tem certeza de que vai ter eleição. Ainda não está no momento. As pessoas que sabem, não estão certas disso... Elas não se ligaram. Mas as pesquisas ainda assim são válidas porque captam o humor geral. São um bom termômetro. Eu considero as pesquisas nessa fase um bom guia das tendências do eleitorado.

BBC Brasil - Com a saída de Ciro Gomes do páreo, damos mais um passo em direção à polarização da campanha. Que papel a Marina Silva (PV) pode ter nas eleições? O de ser um trunfo no segundo turno?

Almeida - A Marina pode ser o único elemento surpresa dessa eleição. A experiência brasileira nos mostra que esses candidatos “surpresa” conseguem chegar a até 12% do eleitorado. Foi assim com o Garotinho e foi assim com o Ciro. Se ela passar disso, se chegar a 15% será surpreendente.

BBC Brasil - No cenário de uma eleição mais polarizada, a disputa fica mais difícil? O candidato tende a disputar o eleitor de seu principal oponente, não?

Almeida - Por esse lado, sim. Em termos de persuasão, fica mais difícil. Por outro lado, é bom lembrar que cada um dos candidatos tem uma parcela “certa” de eleitores. Entre os eleitores do Serra há aqueles que não votam no PT de forma alguma e vice-versa. Agora, temos a parcela dos que se dizem indecisos hoje. E esses, mesmo que decidam o voto em breve, podem ser considerados mais suscetíveis a mudar de opinião. Os dois partidos vão tentar seduzi-lo.

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