Grã-Bretanha

Trabalhistas sinalizam fim de negociação para formar governo britânico

Nenhum partido conseguiu a maioria absoluta nas eleições britânicas

Políticos trabalhistas reconheceram nesta terça-feira que os esforços do partido na busca de um acordo para participar de um novo governo britânico chegaram ao fim, de acordo com informações apuradas pela BBC.

Um aliado próximo do primeiro-ministro britânico, o trabalhista Gordon Brown, afirmou à BBC que os trabalhistas estão prestes a admitir o fracasso nas negociações para formar uma coalizão de governo com os liberais-democratas.

De acordo com o comentarista de política da BBC Nick Robinson, os representantes do Partido Liberal Democrata decidiram retomar as negociações para um acordo com o Partido Conservador, e os trabalhistas planejam se reagrupar na oposição como o "único partido progressista".

Se confirmada, a decisão abre caminho para uma aliança entre os partidos Conservador e Liberal Democrata e um possível governo com o líder conservador David Cameron como primeiro-ministro.

Representantes conservadores e liberais-democratas ainda negociam os detalhes de um acordo, quatro dias depois das eleições que resultaram na formação de um Parlamento em que nenhum partido conseguiu conquistar a maioria absoluta.

Para que o acordo possa ser fechado, o líder liberal-democrata, Nick Clegg, precisa garantir o apoio da executiva federal e da maioria dos parlamentares de seu partido.

Nesta terça-feira, repórteres da BBC relataram ter visto bagagem de mudança sendo retirada da residência oficial do primeiro-ministro em Londres, em uma possível indicação de que Gordon Brown estaria se preparando para deixar o cargo.

Posição trabalhista

O anúncio, na segunda-feira, de que o primeiro-ministro, Gordon Brown, renunciaria à liderança do Partido Trabalhista havia levado o Partido Liberal Democrata a anunciar a abertura de negociações formais também com os trabalhistas para a possível formação de um governo.

Liberais democratas e trabalhistas já vinham se reunindo extra-oficialmente desde o fim de semana.

A renúncia de Brown, na visão de analistas, abriria o caminho para um possível acordo para uma coalizão entre trabalhistas e liberal democratas comandada por um novo líder trabalhista.

O primeiro-ministro havia afirmado que era do interesse do público britânico que se formasse um governo "progressivo".

Acredita-se que a oposição de importantes lideranças do Partido Trabalhistas a um acordo levou a direção liberal-democrata a considerar que as ofertas do partido de Brown por uma coalizão não seriam sérias.

Sem maioria

Entenda como é formado um governo em caso de Parlamento sem maioria clara

As negociações para a formação de uma coalizão para o governo britânico se tornou necessária após nenhum dos três principais partidos ter conseguido uma maioria absoluta no número de cadeiras no Parlamento após as eleições gerais da última quinta-feira.

O Partido Conservador conquistou 306 cadeiras, os trabalhistas ficaram com 258 e o Partido Liberal Democrata elegeu 57. Para governar sem a necessidade de uma coalizão, um dos partidos teria que eleger 326 deputados.

Ainda que se coligassem com os liberais-democratas, os trabalhistas precisariam ainda do apoio de partidos menores da Escócia, da Irlanda do Norte e do País de Gales para garantir a maioria absoluta no Parlamento.

As eleições na Grã-Bretanha não terminavam sem uma maioria absoluta de um partido - situação que os britânicos chamam de Hung Parliament (Parlamento suspenso ou enforcado, na tradução literal) - desde 1974.

Naquela ocasião, o então líder trabalhista, Harold Wilson, acabou optando por formar um governo sem o apoio da maioria dos deputados, mas foi obrigado a convocar novas eleições poucos meses depois, quando conseguiu uma maioria apertada, de apenas três deputados.

Negociação

Antes de entrar na reunião de negociação desta tarde, o deputado William Hague, ex-líder e membro da equipe de negociação do Partido Conservador, defendeu a formação de "um governo com uma maioria forte e segura na Casa dos Comuns (a câmara baixa - e eleita - do Parlamento britânico) e com um primeiro-ministro eleito".

O comentário foi uma crítica à possibilidade de uma coligação frágil entre trabalhistas e liberal-democratas liderada por um nome que não havia se apresentado durante as eleições como líder de um dos três principais partidos.

O ministro Ed Milliband, um dos negociadores trabalhistas, disse que teve "boas discussões" com os liberais-democratas pela manhã, mas alguns membros da direção do partido advertiram contra um acordo com o partido de Clegg.

O líder liberal-democrata disse que as negociações chegaram a "uma fase crítica e final" e que seu partido fará sua parte para garantir a formação de "um governo bom e estável".

Reforma eleitoral

Tanto o partido Trabalhista como o partido Conservador tentavam atrair o partido Liberal Democrata com promessas de uma reforma eleitoral, que permita uma representação no Parlamento que reflita de maneira melhor a proporção dos votos nacionalmente.

Apesar de terem recebido 23% dos votos em todo o país, os liberal democratas conquistaram apenas 57 das 650 cadeiras do Parlamento (pouco menos de 9% do total).

Isso porque o sistema eleitoral britânico é o distrital puro, sem segundo turno, o que garante a eleição do candidato a deputado mais votado em cada distrito, independentemente de ter a maioria absoluta dos votos no distrito.

Esse sistema pode beneficia os maiores partidos e favorece o bipartidarismo. Ele facilita também a formação de governos de partido único com maioria absoluta no Parlamento - o que não aconteceu no caso das eleições da semana passada, consideradas as mais disputadas em décadas no país.

O ex-ministro do Interior David Blunkett disse à BBC que qualquer coligação de seu Partido Trabalhista com os liberal-democratas seria "uma coalizão dos derrotados" e disse que a reforma eleitoral para permitir representação proporcional seria uma "má ideia".

"Não podemos enfrentar essa confusão a cada vez que tivermos uma eleição", afirmou Blunkett.



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