Assédio virtual e livresco

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Há uns tempos, quando começou a novidade, me baixou um caboclo cibernético, desses bem enfezados, e fez com que eu me registrasse no Twitter.

Não sou chegado a essas coisas, mas sou meio, apenas meio, novidadeiro.

Entrei para o sítio – vamos traduzir esse negócio – para o Gorjeador e esperei um pouco antes de, nos 140 caracteres, a que os gorjeios estavam limitados, dar o meu palpite.

De cara, tive problemas com caráter, que, em seu sentido original, segundo meus velhos e inesquecíveis inimigos, sempre me faltara.

Em informática, o que era um carácter? A mesma coisa que caractere? E como deveria, como devo escrever a palavra? O bom Houaiss me deixou na mesma.

Pobreza de espírito minha.

Também não sabia se era ou não para contar os espaços em branco.

Na cara estava, que, como nos telegramas, e nos escritos dos melhores estilistas, era para o indivíduo ser breve. Tudo bem.

Outra questão que se interpôs entre mim e as possíveis gorjeadas era o fato da língua portuguesa se prestar pouquíssimo às abreviações informatizadas.

Não sou homem de “4 U”. Comigo é “para você” mesmo.

Quantos caracteres estaria perdendo? No máximo, eu botaria lá um “p/v”, quando me referisse a alguém, e seria isso aí. Outras abreviaturas não me ocorriam. “Ñ” para “não”? “S” para “sim”. Não estava pintando bem.

Resultado: fiquei menos de 24 horas na brincadeira (brincadeira? No momento, tudo indica ser a coisa mais séria do mundo eletrônico).

Logo, logo eu já tinha seguidores, me informava o computador. Eu não queria e não quero seguidores. Nem 8 nem 80 mil. Isso, no meu entender, limitado, é óbvio, não é mais que assédio virtual.

Pois pior para mim, ao que parece.

Hoje todas as páginas dedicadas ou não à informática, têm alguma coisa sobre o – volto ao original, para dele pegar distância – Twitter. Tão “twittando” adoidados mundo afora. Tuítando, além do mais.

As comunidades cibernéticas me causam arrepios na alma.

O Livro do Rosto e derivados (nhô, sim, é o propalado Facebook) fazem parte de um conceito que nada tem a ver, para este vosso criado, com alguém se dando com alguém, trocando as mais modestas figurinhas que sejam.

Blog, e até blogue, eu topo. Como tudo a ver com a internet, claro que há exageros, mas com umas boas dicas e uns companheiros “ao vivo” dando deixas, chega-se, chego eu, a alguns que acompanho com interesse. Tem caráter ilimitado, felizmente, e o espetáculo começa e acaba na hora em que você quer, conforme acontecia com as sessões passatempo do velho cinema Capitólio, no Rio.

Fico sabendo agora que nas – e tomem aspas para não serem chatos – “comunidades” Twitter (são 100 milhões de usuários, Senhor!) estão elegendo programas de leitura não cibernetizada, ainda por gorjear. Fruto do labor a 140 characters de uma internauta chamada Nancy Pearl, de Seattle nos Estados Unidos. Nancy Pearl bolou uma espécie de clube do livro, feito a Oprah Winfrey fez com imenso sucesso na televisão, e é para as pessoas computadorizadas votarem em seus livros favoritos.

Quer dizer: não tem livro nenhum. Só o nome de livro. Um jornal me informa que, até agora, o segundo mais votado era Fahrenheit 451, livro de ficção científica do Ray Bradbury, filmado pelo Truffaut, que tratava (em bem mais que 140 characters), justamente de uma sociedade futura onde os livros eram queimados e algumas pessoas escolhidas ficavam o tempo inteiro andando para cima e para baixo decorando Tolstói, Flaubert, Herman Melville, e até Lima Barreto e Machado de Assis, se quiserem, uma vez que era – cuidando de abreviar e inglesar minha caracterização – sci-fi, valendo, pois, o curinga.

Dos dez livros mais votados, era tudo com votação de bestseller de Dan Brown: de um milhão para cima.

O gozado é que não havia ironia ou crítica nem por parte da organizadora do concurso nem dos milhões de eleitores. Uma coisa garanto, vai ser duro para quem se acostumou a viver e se comunicar em menos de 140 characters, ler de David Foster Wallace a JD Salinger ou mesmo Dalton Trevisan.

Eles precisam de, no mínimo, 1080 caracteres.

Pensando bem, Dalton dava pra gorjear direitinho, sim.