De Lena a Elena

Lucas Mendes em ilustração de Baptistão.

Criança, Lena Horne era insultada pelas colegas racistas negras porque tinha a pele muito clara: "Seu papai é branco".

Quando foi para Hollywood, as partes dela nos filmes eram cortadas no sul do país pelos racistas porque negro não podia contracenar com brancos.

Na Segunda Guerra, Lena foi cantar para as tropas, mas fechou a boca quando quiseram que cantasse para uma plateia segregada.

“Ou convidam os ‘brothers’ ou não canto.” Tinha peito.

Em vez de convidar os soldados negros, o exército convidou os prisioneiros alemães, que ficaram nas filas da frente.

Lena Horne continuou com a boca fechada. Só quando misturaram os presos alemães com os negros ela abriu o bico.

“A guerra fez minha carreira”, ela diria mais tarde, “porque os negros não podiam colocar uma foto de Betty Grable no armário deles, mas

podiam colocar as minhas”.

Nem branca nem preta, por causa das brigas ficou conhecida como a “Garota Vermelha”, e durante muito tempo contou que foi colocada na lista negra e não conseguiu emprego em Hollywood por sete anos, mas um dos seus biógrafos relaciona inúmeros sucessos e contratos dela para televisão, rádio e cabarés.

Na época do contrato com a MGM, Lena ganhava US$ 1 mil por semana, uma fortuna. Ganhava US$ 1,5 mil por cada apresentação em rádio e US$ 6,5 mil por semana nos cabarés.

Negro não podia morar em Hollywood, e um amigo branco assinou o contrato de aluguel dela.

Quando os vizinhos descobriram, circularam um abaixo-assinado para expulsá-la.

Foi parar na mão do vizinho de frente, Humphrey Bogart, que mandou um aviso: quem estiver incomodado pela presença da Lena Horne, venha acertar as contas comigo. Fim da historia.

Em 1943 , durante a guerra, ela cantou Stormy Weather num filme com elenco todo negro. Tornou-se um clássico. Foi o trampolim da carreira dela.

Lena protestou na Europa durante a Segunda Guerra e protestou em casa ao lado de Martin Luther King.

Cantou na monumental Marcha em Washington, do discurso “I have a Dream”, e participou de outro protesto no sul, ao lado dele, uma semana antes de ser assassinado.

Tinha ótimas conexões em Washington. Esteve com o presidente Kennedy dois dias antes do assassinato em Dallas, e a máfia da maldade diz que a conexão entre os dois não era musical nem platônica.

Foi a própria mãe quem a tirou da escola com 16 anos para disputar uma vaga no Cotton Club, do Harlem, onde moças lindas e de pele clara faziam parte do coro.

Negro não entrava no clube. Ela não sabia cantar, e foi descoberta pela beleza.

Quem ensinou a Lena o básico da música foi o pianista e compositor Billy Strayhorn, parceiro e amigo de Duke Ellington.

Anos mais tarde, Lena contou que foi o único homem que amou na vida, mas que ele não queria saber dela na cama. Era gay convicto.

O primeiro casamento dela durou pouco, gerou um filho e uma filha, que casou com o diretor de cinema Sidney Lumet.

O segundo casamento, em Paris em 1947, ficou em segredo durante três anos. O marido era um judeu branco, Lennie Hayton, compositor e músico influente em Hollywood.

A separação aconteceu no começo dos anos 60. Anos mais tarde, Lena confessou que só casou para dar um empurrão na carreira dela que andava frouxa. Tinha suas fraquezas.

Lena Horne não conheceu fome, sufoco, nem fracasso na carreira. O disco Lena Horne at the Waldorf Astoria, gravado ao vivo em 1957, se tornou o disco mais vendido por uma cantora na história da RCA Victor.

Minha paixão por ela, infelizmente platônica mas arrebatadora e felizmente passageira, foi no show The Lady and Her Music, recordista de espetáculos “solo” na Broadway: 333 apresentações.

Ela tinha 63 anos - eu tinha 46 - e ela era irresistível. Não foi minha única paixão platônica por estrelas. A primeira foi por Marília Pera, que não era linda nem sexy, quando fui entrevistá-la no ensaio de uma peça para a Fatos e Fotos, no Rio.

Nunca tive coragem de me abrir. Era um jeca recém-chegado de Minas.

Antes das duas tive meu caso com Elizabeth Taylor, que vi num filme no colégio interno.

Escrevi para ela e tive resposta: uma foto linda com dedicatória. Ficou anos na porta de dentro do meu armário. Escrevi de volta: vou aí. Não tive resposta.

Lena Horne cantou até os 80 anos e morreu na semana passada aos 92, quase no mesmo dia da indicação de Elena Kagan para ocupar uma cadeira no Supremo Tribunal americano. Se for confirmada, pela primeira vez o Tribunal terá três mulheres.

Seria absurdo dizer que a indicação da jurista, judia e branca, se deve a Lena Horne, mas há uma relação muito mais do que platônica entre o avanço dos negros e das mulheres. Lena Horne, com a voz e a atitude, fez a parte dela.