O homem tridimensional

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Aos 10 anos de idade, o mundo me parecia algo confuso. Até mais do que hoje. Na época, havia remédio. Exame de vista, diagnóstico de miopia, óculos. O mundo começou a me parecer ao menos mais nítido, e, tolamente entusiasmado com a novidade, não me dei ao longo trabalho em que me entretive pelos muitos anos subsequentes. Que o mundo e todos que nele habitam são confusos.

De óculos, as mãos enfiadas nos bolsos, continuando a participar das peladas na rua e na praia, segui em frente, chutando ponteiros direitos e gente folgando comigo.

“Quatro ôio!”, gritava um. Levava o dele.

Por trás das minhas lentes, não muito grossas, a vida foi passando, tridimensional, achava eu. Moça atravessando a rua, amigo nas primeiras chopadas, carro da rádio-patrulha, tudo isso era tridimensional. Davam-me a sensação de relevo. De comprimento, ou profundidade, largura e altura. Tudo bem. Ou tudo mal. De óculos, ao menos, isso ainda me parecia muito natural.

Outras dimensões não me interessavam, uma vez que não havia jeito de entendê-las. Em minhas leituras (eu tinha que tirar os óculos), desenfreadas, como cabia à minha idade, eu já esbarrara no conceito de uma quarta dimensão, esta tendo a ver com o tempo, sendo pois uma dimensão temporal, e, quase que por força, queriam me empurrar goela abaixo as teorias sobre o espaço-tempo de Einstein. Continuei lendo minhas coisas, dos muitos gibis aos autores ditos clássicos, modernos ou não.

Quinta Dimensão” era o nome de uma série de TV que levaram alguns anos mais tarde.

Sempre de óculos, cinema quase que todos os dias. Secundárias as diferenças entre os bons e os maus filmes. O importante era bater o ponto, assinar a súmula. Fumar driblando o lanterninha, os caramelos Busi no baleiro. Até o raio do dia em que surgem os danados dos filmes em 3D.

Claro que como bom cinemaníaco (cinéfilo era coisa de mariquinhas), eu ia perder. Foi no início dos anos 50. O primeiro, e talvez o último a levarem, era um faroeste dos mais vagabundos e logo no Cineac, no Centro, o que me obrigava, e a qualquer garoto com mais de 16 anos, a botar terninho e gravata.

A novidade valia. Fui com um amigo, o Apolo, que essas coisas só mesmo acompanhada. Ônibus, fila, aluguel de um par de óculos de papelão branco com duas “lentes” de celofane, uma azul e outra vermelha. Sentamos e, na hora indicada por um pequeno short introdutório, botamos os óculos.

Resumindo a palhaçada: eu não vi nada a não ser uns atores e atrizes muito dos fuleiros engolfados por duas cores primárias correndo para lá e para cá. Eu não conseguia encaixar o par de óculos de papelão no meu, de verdade, comprado na Ótica Roxy. O Apolo, dono de excelente visão desocular, também achou uma besteira enorme.

Felizmente a coisa não pegou. Nem no Brasil, nem nos Estados Unidos, onde a novidade, destinada a enfrentar a ameaça da televisão, foi para a cucuia, este vasto cemitério onde se enterram todas tolices que não deram certo.

Uns filmes, bons, rodados originalmente em 3D, passaram normalmente em 2D, embora, ocasionalmente, sem o menor motivo, alguém arremessasse outro alguém ou alguma coisa de encontro à câmara.

Até hoje dá para conferir: o musical de Cole Porter filmado pela MGM, “Kiss Me Kate” (“Dá-me um Beijo”, pombas!), dirigida pelo George Sydney em 1953 e com minha namorada da tela – ô, saudades! – Kathryn Grayson. “House of Wax” (“Museu de Cera”), do mesmo ano de 53, dirigido pelo bisonho André de Toth, que, meio sem querer, até que trabalhou bem.

E mais não me lembro nem quero lembrar.

Sei que a moda voltou. Sei que os “zocrinho” apresentam melhoras tecnológicas. Sei que os verdes se preocupam com a reutilização dos objetos em questão. Sei que o filme Avatar daquele homem do (ui!) Titanic já vendeu a preços módicos a quase que 6 milhões e 500 mil quilômetros de óculos especiais. Sei que já falam em TV em 3D. Sei que Hugh Hefner, o homem da Playboy, já declarou que vem aí saltando das páginas de sua revista uma “coelhinha” em 3D. Sei que os óculos para filme, TV ou revista em 3D dão glaucoma incurável. Quer dizer, saber não sei, mas espalhem, companheiros, espalhem.