EUA reconhecem esforço, mas dizem que acordo com Irã é vago

Lula e Ahmadinejad
Image caption Os Estados Unidos consideraram o acordo vago

Os Estados Unidos disseram reconhecer os esforços do Brasil e da Turquia para obter um acordo sobre o programa nuclear iraniano, mas afirmaram que o entendimento anunciado nesta segunda-feira ainda é vago e não afasta as preocupações da comunidade internacional.

"Nós reconhecemos os esforços feitos pela Turquia e pelo Brasil", disse o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, em um comunicado.

"Dadas as repetidas vezes em que o Irã falhou em manter seus próprios compromissos e a necessidade de abordar questões fundamentais relacionadas ao programa nuclear do Irã, os Estados Unidos e a comunidade internacional continuam a ter sérias preocupações", afirmou.

"A declaração conjunta anunciada em Teerã é vaga sobre a disposição do Irã em se reunir com os países do P5 + 1 (grupo formado por Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, Rússia, China e Alemanha) e abordar as preocupações da comunidade internacional sobre o seu programa nuclear", diz o texto.

Segundo o porta-voz da Casa Branca, o acordo deve ser apresentado de maneira clara à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) antes que possa ser considerado pela comunidade internacional.

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Proposta

Pelo acordo, o Irã se compromete a enviar 1,2 tonelada de urânio com baixo nível de enriquecimento (a 3,5%) à Turquia. Em troca, receberá urânio enriquecido a 20% para ser usado em um reator nuclear para pesquisas médicas.

Entenda o acordo e a polêmica em torno do programa nuclear iraniano

A base para o entendimento foi uma proposta apresentada em outubro do ano passado ao Irã pela AEIA, que previa a troca de urânio com baixo nível de enriquecimento pelo produto enriquecido para uso civil, mas não militar.

O acordo foi anunciado na manhã desta segunda-feira, em Teerã, durante visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que comemorou o entendimento como “uma vitória da diplomacia”.

O Brasil vinha tentando obter uma solução pacífica para a questão nuclear iraniana, na tentativa de evitar a imposição de novas sanções do Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas) contra o Irã, como querem os Estados Unidos e outros países.

Muitos países, porém, reagiram com ceticismo ao anúncio. Israel disse que o Irã está "manipulando" Brasil e Turquia.

O presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, disse que a posição da União Europeia não mudou e que o Irã precisa dar garantias à comunidade internacional sobre as intenções de seu programa nuclear.

O comandante da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte), James Stavridis, disse que o acordo é “um bom avanço”, mas que ainda há "milhões de milhas pela frente".

A ONU, por meio de um porta-voz, disse que os esforços diplomáticos são "animadores" mas que o Irã deve seguir as resoluções já aprovadas pelo Conselho de Segurança.

Garantias

Alguns analistas afirmam que não há garantias de que o Irã vai interromper seu processo de enriquecimento de urânio, como querem os Estados Unidos e seus aliados.

O temor desses países é que o Irã planeje secretamente desenvolver armas nucleares, alegação negada pelo governo iraniano.

As resoluções anteriores já aprovadas pelo Conselho de Segurança não foram suficientes para convencer o governo iraniano a interromper seu programa de enriquecimento de urânio.

"O Irã disse hoje que vai continuar seu enriquecimento a 20%, o que é uma violação direta das resoluções do Conselho de Segurança da ONU", diz o comunicado da Casa Branca.

"Os Estados Unidos vão continuar a trabalhar com nossos parceiros internacionais e por meio do Conselho de Segurança da ONU para deixar claro ao governo iraniano que deve demonstrar por meio de ações – e não apenas de palavras – sua boa vontade em cumprir as obrigações internacionais ou enfrentar as consequências, incluindo sanções."

Segundo Gibbs, os Estados Unidos "continuam comprometidos com uma solução diplomática para a questão iraniana" e irão "consultar" seus aliados sobre o desenrolar dos fatos.

Em uma entrevista coletiva, o porta-voz do Departamento de Estado, Philip Crowley, reafirmou as preocupações americanas e disse que enquanto o Irã não demonstrar por meio de ações o seu comprometimento, os Estados Unidos vão continuar a buscar a aprovação de novas sanções.

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