Para Brasil, acordo com Irã é 'vitória da diplomacia' e deve evitar sanções

O presidente Lula e o líder do Irã, Mahmoud Ahmadinejad
Image caption Lula afirmou que acordo com o Irã é 'vitória da diplomacia'

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou como "uma vitória da diplomacia" o acordo mediado por Brasil e Turquia em que o Irã se comprometeu a enviar urânio para fora de seu território para obter em troca urânio com maior grau de enriquecimento, em uma aparente concessão aos apelos da comunidade internacional em relação a seu programa nuclear.

Durante seu programa semanal Café com o Presidente, transmitido pela Rádio Nacional na manhã desta segunda-feira, Lula, que visitou Teerã, se disse "feliz" com o acordo e afirmou que ele mostra que o diálogo "é possível".

"Fiquei muito feliz porque foi uma vitória da diplomacia. Quando os diplomatas se reúnem em torno de uma causa séria e têm o apoio dos seus presidentes, a coisa acontece", disse.

O presidente afirmou ainda que o Brasil "teve um papel importante" para que o acordo fosse alcançado, principalmente devido à "afinidade existente entre o ministro (das Relações Exteriores) Celso Amorim, o ministro da Turquia e o próprio ministro das Relações Exteriores do Irã".

Sanções

Em uma participação no mesmo programa, o ministro Celso Amorim afirmou esperar que a assinatura do acordo possa evitar uma nova rodada de sanções das Nações Unidas contra o Irã, algo que o governo dos Estados Unidos e outros membros do Conselho de Segurança da ONU vinham defendendo.

"Na nossa opinião, deve ser suficiente (para evitar as sanções), porque nós ouvimos todos, nós conversamos muito com os franceses, nós conversamos muito com os americanos, conversamos muito com os russos, com os chineses", disse Amorim.

O chanceler brasileiro, no entanto, reconhece que o Brasil e a Turquia não estavam negociando em nome dos membros do Conselho de Segurança, embora não veja "razão para que haja continuidade nesse movimento em favor de sanções".

Ainda segundo Amorim, as negociações para o acordo tomaram muitos meses, tendo início em novembro do ano passado, quando o presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, visitou o Brasil.

Acordo

Pelos termos do acordo, o Irã deve enviar 1,2 tonelada de urânio de baixo enriquecimento (3,5%) para a Turquia em troca de combustível para um reator nuclear a ser usado em pesquisas médicas em Teerã.

O entendimento anunciado nesta segunda-feira e assinado em frente a jornalistas em Teerã tem como base a proposta da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA, órgão da ONU), do final do ano passado, que previa o enriquecimento do urânio iraniano em outro país em níveis que possibilitariam sua utilização para uso civil, não militar.

Após o anúncio do acordo, no entanto, um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Ramin Mehmanparast, anunciou que o país pretende continuar enriquecendo urânio em seu território.

Em entrevista à agência de notícias estatal iraniana Irna, Mehmanparast afirmou que embora o Irã pretenda enviar no prazo de um mês 1,2 tonelada de urânio pouco enriquecido à Turquia, como previsto no entendimento, o país vai continuar a enriquecer urânio em 20%.

Ainda segundo o porta-voz iraniano, a AIEA será oficialmente notificada dentro de uma semana a respeito do acordo.

O processo de enriquecimento de urânio pode servir tanto para a utilização da energia nuclear para fins civis como militares. Para a produção de armas atômicas, no entanto, o elemento precisa ser enriquecido em pelo menos 90%.

Desconfiança

Apesar de comemorado pelas autoridades brasileiras, o acordo foi visto com ceticismo por membro da comunidade internacional.

Poucos minutos após o anúncio, Israel criticou o Irã, afirmando que Teerã está "manipulando" o Brasil e a Turquia.

O presidente russo, Dmitry Medvedev, com quem Lula havia se encontrado na semana passada, pouco antes de ir a Teerã, classificou como "boas" as noticias sobre o acordo, mas levantou algumas questões sobre o entendimento, principalmente relativas ao fato de o Irã continuar enriquecendo urânio.

"O Irã continuará enriquecendo urânio? Até onde eu sei, a julgar por declarações de autoridades do país, eles continuarão com este tipo de trabalho. Neste caso, as preocupações da comunidade internacional continuarão."

Medvedev também questionou se as quantidades de urânio a serem trocadas irão satisfazer as demandas da comunidade internacional. Para ele, novas consultas a respeito do acordo serão necessárias.

Já o ministro das Relações Exteriores da França, Bernard Kouchner, elogiou a "tenacidade" dos governos de Brasil e Turquia para tentar chegar a um acordo, mas afirmou que é preciso que mais detalhes sejam revelados para que o Conselho de Segurança da ONU e a AIEA possam avaliá-lo.

"Vamos esperar pelas propostas concretas. Estamos esperando pelo texto (do acordo) e responderemos assim que possível."

O presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, por sua vez, afirmou que a posição do bloco em relação ao Irã não muda com o acordo.

"A posição da União Europeia é conhecida há meses e não mudou. Estamos preocupados com o programa nuclear do Irã. O Irã precisa dar garantias à comunidade internacional sobre as intenções de seu programa nuclear", disse.

Leia mais na BBC Brasil sobre o anúncio do acordo

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