Tentáculos desse 'governo que taí'

Os brasileiros sempre fomos meio desrespeitosos em relação a governos. Com alguma razão. O século que passou foi pródigo naquilo que já se chamou, tola e eufemisticamente, de “governo forte”, mas podem chamar de ditadura mesmo que não dá mais prisão ou súbitos desaparecimentos. Muita gente boa chegou a pegar em armas por causa “daquele governo que tava lá”. A questão ainda é debatida. As anistias – dos mais diversos matizes – proliferam.

De minha parte, não me lembro de me entusiasmar por qualquer governo. Achei graça em Juscelino, mas não votei nele pelo motivo que 85% das pessoas votaram (“Ah, ele é tão simpático!”). Jânio era hilário, mas despertou para a vida política como anedota e acabou como piada do pior gosto possível.

Quanto às ditaduras de Getúlio Vargas, sou filho do Estado Novo, pouco tive a dizer a respeito e, no momento em que eu estava prestes (nada a ver com O Cavaleiro da Esperança) a achar qualquer coisa, ele virou o Getúlio Vargas, ou Gegê 2.0, como se diria hoje. Na época, era ele tanto na Terra quanto no Céu, ou mais embaixo, e no momento em que ele escolheu, já que tinha excelente timing.

Definitivamente, não sou um ser politizado. Li o que podia a respeito do que chamam, sem ironia, de arte de governar. Entre nós e nas estranjas, em nosso tempo e nos dos outros. É, era curioso. Mas a praia é bem melhor, idem as moças e os papos com os amigos na mesa do bar.

Política, nós importamos, sem muito a ela ligar. Não posso me esquecer do locutor Hilton Gomes dando na televisão Excelsior a notícia do assassinato de Kennedy debulhado em lágrimas. Seguramente, algo de muito errado vinha se passando. Em matéria de importações, melhores eram os “rabos de peixe”, o Bob's, os filmes (mesmo naquelas obrigatórias cópias brasileiras miseráveis), gibis e, para quem sabia inglês, o que era quase obrigatório, livros de bolsos, os pocket books.

Tentei torcer pela política quando cheguei aqui no Reino Unido pela primeira vez, em 1968. Era, no entanto, uma época, para variar, chata e invocada. Vietnã, passeatas, flor, amor, maconha, minissaias, Beatles, Jane Fonda. A grande vantagem de 1968 no Reino Unido era não se estar no Brasil, onde o pau comia, segundo alguns (poucos, muito poucos) livros narram.

De lá para cá, “neste curto espaço de tempo”, conforme Gegê, ou Rebeco o Inesquecível ou ainda O Bom Velhinho, o inefável Getúlio Vargas, em discurso memorável, se referiu aos 15 primeiros anos de sua ditadura. De lá para cá, repito e enfatizo, muito pouca coisa que despertasse interesse aconteceu por estas bandas (e quase que eu escrevo bandos). Talvez por aí não.

Aconteceu, e como, foi Margaret Thatcher, que, na minha desrespeitosa vida interior, sempre chamei mentalmente de “O Marechal de Ferro”. Essa era fogo. Você nunca sabia quem iria levar a próxima bolsada na fachada. Ou a que hora. Podia não ser um mito fajuto, feito o JFK, mas ninguém perde por esperar. Uma estátua já deve ter sido encomendada e o pessoal está apenas, como nos maus restaurantes, “caprichando”.

O que eu quero dizer mesmo é que, não me incomodando na rua, não me tomando o rico dinheirinho que escondo no colchão, eles todos – políticos, governantes – não me chateiam. O que me parece, pelo que andei conferindo com o estar no mundo, incluindo minhas observações pessoais e leituras, é o estado e as condições ideais para a vida política. Que os políticos nos deixem em paz. Já bastam os homens que mandam no vil metal mundial (no meu colchão ninguém toca) inventando seus truques, manobrando suas guerras e inventivos investimentos. Saco cheio, o tédio, é o melhor incentivo numa sociedade politizada. Atear fogo às vestes ou ir de overdose a gente vê outro dia.

Tudo isso para dizer que a injeção de sangue (chamam de novo) no cenário político britânico durou muito mais do que parece indicar seu quase um mês de duração, entre convocação de eleições gerais, pleito e negociações, digamos assim, “pragmáticas” pelo governo recém-formado.

Leio os jornais, vejo a televisão e não consigo dar com nada e ninguém que me chame a atenção por isso ou por aquilo. São todos iguaizinhos ao pessoalzinho que, até agora, entre 1968 e ontem, estavam por aqui mãe-parlamentando.

Volto, como se fora uma vocação, beirando mesmo a aspiração, ao bizarro, que dele deveríamos viver e nele votar. Feito o caso desse cidadão, Andrew Dymond, da cidade de Mumbles, no sul do País de Gales, preso porque a polícia encontrou em seu computador fotos de um homem tendo relações sexuais com um animal morto, que tanto poderia ser, segundo a perícia galesa, uma lula gigante ou um polvo. Enfim, um molusco cefalópode beirando o jeitoso.