Porre gigante

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Os britânicos deram ao mundo, além da monarquia parlamentar bicameral, aquilo que se convencionou chamar de binge drinking. Que, sem trocar as pernas, podemos serena e sobriamente traduzir por “pifão colossal”.

Ou ainda, se quisermos mais uma ou duas, “bebedeira monstro” ou “pifão comunal”. O nome já diz tudo. Uma porção de gente, de comum acordo, e a horas, ou desoras, marcadas, vai e enche a cara. Mas enche a cara para valer.

Sai depois “pela aí” fazendo as coisas que o Código de Hamurabi dos bêbedos, e até mesmo dos bêbados, manda que sejam seguidas. Cantam, provocam brigas, ficam sentimentais, quebram coisas, vomitam. A ideia geral já é conhecida. Conhecida nossa e todo mundo.

São os bêbados uma raça aparte e, mesmo chamando-os de alcoólatras, não conseguem emplacar a condição de impor algum respeito. Medo, sim; respeito, não. Servem apenas para os pais apontarem para um na rua e, baixinho, dizerem para os filhos, “Tá vendo? É nisso que dá.”

Nós, brasileiros, gostamos de umas e outras. Chamamos de birinaites, derramamos uma boa quantidade, inclusive para o santo, que é de praxe, e depois damos um telefonema danado de errado para uma antiga namorada já casada e que há anos deixou de pensar na gente.

Mais de dois curtindo um pileque, federal ou não, vira caso de polícia e há sempre um chato, ou uma senhora chatíssima, para ser mais preciso, que dá o aviso. Somos bruscamente interrompidos por um meganha (no patois dos pinguços) logo no momento em que um de nós conseguiu se lembrar do segundo verso de Chão de Estrelas, do Orestes Barbosa. O remédio é maneirarmos e, com alguma sorte e boa vontade dos “homens”, não pegarmos umas horinhas de cadeia.

Há, e até que é bacaninha, aqueles que exageraram na água que passarinho não bebe e que recebem apoio moral e físico de uma companheira, sempre querida. Como na célebre crônica de Antonio Maria, aquela em que, o dia nascendo em Copacabana, tem uma mulher, num banco da Avenida Atlântica, segurando a testa de um camarada mais do que alto, dizendo em seu ouvido, “Vai, meu bem, vai. Vomite mesmo que você vai se sentir melhor”. E, para um passante - Antonio Maria? -, “No fundo, ele é um homem muito bom.”

Não se bebe mais assim. O mundo passou a beber mais e mal. Possivelmente culpa dos binge drinkers ingleses. Os franceses, agora, me informam os jornais, entraram nessa onda, eles que ensinaram o mundo a beber do bom e do melhor da maneira mais chique possível.

Pegou por aquelas bandas, e virou um problemão para as autoridades de grandes e pequenas cidades, aquilo que, na língua a que nos acostumamos de chamar de Molière, passou a ser conhecido como um “apéro géant”, literalmente um “aperitivo gigante”. Nantes, Rennes, Brest e, programado para o próximo domingo, até segunda ordem, o “aperetivão” para acabar com todos os “aperetivões”, a se realizar nas proximidades da Torre Eiffel.

Tudo combinado e traçado via internet e, para ser logo nome aos bois, pelos milhões de páginas do raio desse tal de Facebook, conforme me informam as folhas.

Em um momento de razoável sobriedade, um defensor e, claro, praticante do apéro, declarou a um jornalista que o fenômeno não é mais do que a comemoração (beberação, você quis dizer, certo, mon cher?) da amizade e um precioso e necessário antídoto contra os valores de uma sociedade moderna que preza apenas a anonimidade.

Só mesmo um francês para racionalizar o irracional.