Lula diz que negociações com o Irã podem voltar à estaca zero

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante seminário em Madri nesta quarta-feira (Foto: Ricardo Stuckert / PR)
Image caption Presidente defendeu a presença de novos atores nas negociações

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta quarta-feira que as negociações com o Irã podem “voltar à estaca zero” caso os membros do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU) não aceitem discutir com Teerã o programa nuclear do país.

“O Irã aceitou se sentar à mesa de negociação. Agora depende do Conselho de Segurança da ONU, porque, se não se sentar para negociar, vai voltar à estaca zero”, disse o presidente durante o discurso de encerramento de um seminário sobre economia em Madri, nesta quarta-feira.

Em suas primeiras declarações sobre a questão iraniana desde que os membros permanentes do Conselho de Segurança anunciaram estarem trabalhando em uma quarta rodada de sanções contra o país, Lula afirmou que a falta de diálogo com Teerã pode levar a “problemas sérios”.

O presidente disse também que o cenário da política internacional necessita de novos protagonistas.

“É preciso mais atores, mais negociadores. Se a ONU continuar assim, vai ter problemas sérios”.

‘Como queriam os EUA’

O discurso foi feito dois dias depois do anúncio de um acordo mediado por Brasil e Turquia em que o Irã se comprometeu a enviar parte de seu urânio para ser enriquecido fora de seu território – como previa um acordo que acabou fracassando no ano passado.

Entenda o acordo e a polêmica em torno do programa nuclear do Irã

Segundo o presidente, para o acordo, o Brasil agiu “como queriam os Estados Unidos”, que agora defendem as sanções contra Teerã junto com os outros membros permanentes do Conselho de Segurança, entre eles, China e Rússia.

“Nós fizemos exatamente o que os Estados Unidos queriam. Qual era o grande problema do Irã? É que ninguém conseguia fazer com que o Irã se sentasse à mesa de negociação”, disse.

Na saída do evento, a caminho do aeroporto, Lula parou para cumprimentar os jornalistas brasileiros e, ao ser perguntado sobre a participação de China e Rússia no acordo para novas sanções contra o Irã, respondeu apenas que os países “são amigos”.

Negociações

Também nesta quarta-feira, o Ministério das Relações Exteriores enviou uma carta aos membros do Conselho de Segurança da ONU com a Declaração Conjunta sobre o programa nuclear iraniano assinada na última segunda-feira pelos governos de Brasil, Turquia e Irã.

Na carta, os governos de Brasil e Turquia detalham como deve funcionar o processo de troca pelo Irã de urânio pouco enriquecido pelo elemento enriquecido em níveis que possam ser utilizados para fins civis.

“A Declaração Conjunta mostra a forte convicção dos três países (Brasil, Irã e Turquia) de que a troca de combustível nuclear trará a oportunidade de começar um processo de criação de uma atmosfera positiva e construtiva que levará a uma era de interação e cooperação” diz a carta.

Afirmando ter “confiança” de que os países do P5 +1 – grupo que tem realizado negociações sobre o programa nuclear iraniano – verão o acordo como um caminho para o “diálogo”, Brasil e Turquia defendem mais negociações com Teerã.

“Brasil e Turquia estão convencidos de que é hora de dar uma chance às negociações e de evitar medidas que prejudiquem soluções pacíficas a essa questão.”

Reformas

Além da questão iraniana, durante o seminário em Madri, o presidente voltou a falar em mudanças estruturais no comando de grandes instituições multilaterais.

Lula citou o Conselho de Segurança da ONU e o G20 como exemplos de instituições cujas estruturas ele considera desatualizadas.

“A governança global da ONU representa o mundo de 1945, mas não o de hoje. É preciso levar em conta a África, o Oriente Médio e todas as suas confusões, a América Latina, o Japão...”, disse o presidente, que afirmou que “quem está sentado na cadeira (de membro permanente do CS) não quer mudar”.

“Tem gente que pensa que quanto mais fracas as Nações Unidas, mais fácil será tomar as decisões.”

O presidente deu a entender que a resposta dada pelas grandes potências à recente crise econômica internacional não foi coordenada.

“O G20 funcionou em um primeiro momento. Mas depois, cada um volta para o seu próprio país e faz o que bem entender”.

“A crise não acabou e não sabemos quais são os efeitos dela. A Europa demorou três meses para ajudar a Grécia.”

Reivindicando a participação do Brasil e de outras nações emergentes nos grupos das potências, o presidente repetiu várias vezes durante o discurso improvisado que o “Brasil já é um ator global na governança mundial” e “o Brasil se transformou em uma grande potência”.

Eleições

Falando a empresários, muitos deles investidores no Brasil, Lula afirmou também que as condições para as próximas eleições presidenciais são muito diferentes das que ele enfrentou há oito anos.

“Nunca tivemos um processo eleitoral tão tranquilo, com nenhum jornal preocupado com quem vai ganhar”, disse.

O presidente lembrou da reação dos mercados ante a possibilidade de ele ser eleito em 2002, definindo o panorama da época como “turbulento”.

Mas disse aos investidores que, daqui para frente, acha “muito difícil quem ganhar mudar tudo e fazer o Brasil voltar ao que era antes. O Brasil aprendeu a ser sério”.

Lula deixou clara sua aposta na vitória da pré-candidata Dilma Rousseff: “Tenho a convicção de que vou eleger a minha candidata”, mas também deu suas impressões sobre Serra e Marina Silva.

“A Marina foi minha ministra. O José Serra é amigo de todo mundo aqui.”

Após o seminário o presidente Lula embarcou para Lisboa onde participará da Cimeira Luso-Americana nesta quarta-feira.

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