Os Penisóides Mutantes

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Falos venusianos. Com um olho só. Surrealistas, se for possível tal coisa no planeta vizinho. Têm nome. Wenlock e Mandeville. Circulam em cantos seletos destas ilhas assustando crianças e chocando senhoras e cavalheiros de sensibilidade mais apurada.

Não era esta a intenção original dos designers que, por uma pequena fortuna, os bolaram. Quem é Wenlock? Quem é Mandeville? São as mascotes oficiais para os Jogos Olímpicos de 2012, a se realizarem aqui em Londres.

Wenlock assim foi batizado em homenagem à aldeia olímpica que abrigará disputas e atletas. Mandeville é homenagem ao hospital situado nas proximidades e que deverá abrigar os atletas com problemas de distensões ou excessos de “vitaminas”, para usar do eufemismo corrente nos meios desportivos. Podem me chamar de anabolizantes ou por aí, certo?

Não tenho como ilustrar este texto, dar um plá para o leitor curioso ou duvidoso de minha comparação. Aconselho o Google. Daí então vão para as imagens. Estou certo ou não? Claro que estou. Deveriam ter o nome, conforme sugeriu a colunista do Guardian, Lucy Mangan, de The Peniods, que, com a devida licença, eu traduziria por Os Penisóides – uma mutação extraterrestre.

Lucy Mangan, que não tem papas nem na língua nem no teclado de seu computador, encerra o pequeno parágrafo de sua coluna chamando de dickheads todos os envolvidos no processo criativo das duas criaturas. Dickheads, literalmente cabeças de, digamos assim, pênis, ou, no calão popular anglo-saxão, pessoa estúpida, burra, idiota. Mais ou menos (menos) nosso “cabeça de bagre”, para ir de mansinho, já que tenho apenas quatro décadas de Reino Unido, continuo sendo um forasteiro, devo e tenho de tomar muito cuidado com a maneira de lidar com assuntos mais delicados, como com os dickheads que me cercam, por exemplo.

Quando divulgaram, há algum tempo, o logotipo para os mesmos Jogos Olímpicos, esses de 2012, achei uma abominação. Nada mais do que um amontoado de figuras geométricas sem eira nem beira, sem sentido composicional, um conjunto burramente aleatório destituído de qualquer charme visual. Todos de volta ao Google para conferir. O escritório de designers que o bolou levou uma nota alta e preta. Bruta vontade de, como dona Lucy Mangan, gritar, ou pelo menos escrever, “Vocês também não passam de uns Dickheads!”

Contenho-me. Pego do pinho e, saudosista que sou, volto no tempo a outros Jogos, outros logotipos, outras mascotes. A primeira mascote que me ocorre é a da própria Inglaterra da Copa do Mundo de 1966, o World Cup Willie (googlai, amigos, googlai esta e todas as outras mascotes que se seguem), tão simpático, apesar daquele gol inglês que, sejamos sinceros, não foi gol nem aqui nem na China ou no Irã, que está mais em moda.

E o Juanito mexicano, do para nós inesquecível e insuperável 1970. E até os alemães, pesadões e sempre ganhando na marra e no peito, que demonstraram, em 1974, um insuspeito jeito para a coisa com as mascotes Tip e Tap. Cito e louvo ainda o Gauchito argentino de 1978 e o Naranjito espanhol de 1982.

Enfim, todos e qualquer coisa, menos o logotipo, esse puzzle, um perfeito imbecil, das Olimpíadas de Londres para 2012, e os dois Penisóides, que continuam, obscenos, a circular por aqui na net e na imprensa.

É de se esperar que nós, brasileiros, quando estivermos mais próximos de 2016, não cheguemos nem perto de qualquer mascote que lembre um Penisóide ou um logotipo bolado por dickheads. Até bolado por cabeças de bagre seria mais aceitável. Pensando melhor ainda: e por que não uma cabeça de bagre? E polivalente? Valendo tanto como logotipo quanto mascote?