Triatlo tétrico

Definitivamente, não entendo e nunca entenderei o mundo e as pessoas que nele habitam. Uma das coisas que mais me invoca é saber por que é que vão eles, homens e mulheres, indiferentemente, às ruas.

Certo que tenham que ir para o trabalho, fazê-lo o melhor possível, e, depois, encerrado o expediente, voltar para casa. E, pelo resto do tempo, na casa ficar. Principalmente nos fins-de-semana e feriados. Não há nada a se fazer na rua. Xongas! Onde quer que se esteja, só iremos dar de cara com gente que pouco ou nada vale a pena. Nunca encontrei nada de interessante na rua. Xongas! Só besteira. E gente besteando.

Essa é minha posição existencial diante do que se passou e passa por aí. Ficar em casa. Sentado na poltrona, deitadão no sofá, a televisão ligada o tempo todo, o rádio também, disco rodando na vitrola (sim, vitrola), vez por outra fazer uma festa na cabeça da gata.

Sim, claro, vou ocasionalmente até a esquina. Sempre me esquivando, com o maior cuidado, olhando para os lados. O ditador paraguaio estava certo: as esquinas ocultam conspirações. Mas alguém tem que se aventurar e comprar mantimentos, água de coco, comida para a bichana, um jornal ocasional, só para nele confirmar e ver justificados meus temores.

Pedofilia, incesto, assassinatos sequenciais, assaltos, roubalheira, políticos, música popular contemporânea. Está tudo noticiado. Na televisão, ao menos, o controle remoto me dá a sensação de onipotência podendo zapear o mundo, a vida, tudo que ocorre e desocorre.

A vida se passa em casa. No máximo, após os senões obrigatórios que já enumerei, dar uma chegada até a janela e, nos dias em que infelizmente faz sol e não chove a cântaros, observar as idiotices de uma paisagem quase toda cooptada por uma humanidade inepta e destituída de imaginação e bom senso.

Abro um livro. Fernando Pessoa, em geral. Outro chegado a se utilizar da janela como posto de observação de xongas. Não há “pequenas sujas a comerem chocolates” em meu campo de visão. Nem tabacaria, nem seu dono sorrindo. Nem algum conhecido chamado Esteves. A realidade, bom Pessoa, é bem mais dura que vossos mais intrincados versos metafísicos, pouco importam vossos heterónimos (vai sem circunflexo, em subtil homenagem ao “acordo ortográfico” que, louvado seja Nosso Senhor, não pegou nem pegará em terras lusas).

Toda essa manifestação pouco recatada de minhas intimidades interiores veio à tona, neste final do mês de Maria, graças à terrível notícia que vi estampada em meia página de jornal de primeiro time, ilustrada a 4 cores e com retrancas.

Deus há de vos castigar, Dan Martin. Não perdes por esperar. Estás a atentar contra as regras mais comezinhas que orientam, ou deveriam orientar, a vida interior e exterior dos homens. Toda vossa tentativa redundará, espero eu, em fracasso e frustração. Em xongas. Espero e torço.

Dan Martin, um homenzarrão de 28 anos com quase 2 metros de altura, oriundo de Peterborough, aqui na Grã-Bretanha, vai atentar contra Deus, seus semelhantes e os princípios éticos, morais e filosóficos que regem, às escondidas, como fúrias da mitologia grega, nossos destinos. Big Dan Martin já errou antes, e mais, muito mais, pretende errar.

Big Dan, no início do ano corrente fez de bicicleta o percurso entre a Coreia (não ficou claro se a do Norte ou a do Sul) e a Cidade do Cabo, na África do Sul. Para meu sossego e de seus leitores, o jornal em questão, inepto, claro, não forneceu maiores detalhes. Xongas!

Detalhou, isso sim, os planos tétricos de Big Dan. Por ordem, primeiro esse indivíduo pretende atravessar a nado o Oceano Atlântico entre os Estados Unidos e a França. Segundo, montar de novo em sua bicicleta e rodar toda a Europa até o estreito de Bering.

A seguir, em sua agenda diabólica, pegar um trenó e cruzar toda a extensão congelada do tal estreito e, finalizando, como a cereja podre no topo do bolo envenenado, conforme deveria dizer o anexim em inglês, correr – repito: correr – até Nova York.

Há forças ocultas que agem para o bem. A iniciativa diabólica está adiada até segunda ordem devido à falta de patrocinadores. Prova de que ainda há anjos zelando por nós nesse mundo a cada dia mais programado por um infinito número de demônios hediondos.

Vade retro, Dan Martin.