'Estou acuada, é a pior sensação do mundo', diz brasileira no Arizona

Manifestação contra a lei no Arizona
Image caption Lei está provocando protestos de imigrantes em todo os EUA

Desde que a governadora do Arizona assinou uma nova lei de imigração no Estado, no final de abril, a brasileira Rosiliane Diaz passou a sair de casa somente duas vezes por semana, para trabalhar.

Há sete anos vivendo em Phoenix, Rosiliane tem medo de ser alvo da nova legislação, que torna crime estadual a presença de imigrantes ilegais e permite que a polícia pare, interrogue e exija documentos de qualquer pessoa suspeita.

"Eu estou com muito medo. Tenho a sensação de que todo mundo está me olhando", diz a brasileira, que entrou ilegalmente nos Estados Unidos cruzando a fronteira do México.

"Estou muito acuada aqui. É a pior sensação do mundo. Não é uma coisa fácil de se levar", afirma.

Rosiliane, que recebeu a reportagem da BBC Brasil em sua casa, autorizou a publicação de seu nome. Preferiu, porém, não ter sua foto publicada.

Família

A brasileira de 32 anos vive na capital do Arizona com o marido, o uruguaio Rolando Diaz, 39, e a filha, Marina, de dois anos.

O marido, que também chegou ao país atravessando ilegalmente a fronteira, 14 anos atrás, conseguiu regularizar sua situação alguns anos depois, ganhou residência permanente e hoje aguarda para breve a concessão de cidadania americana.

Rosiliane, porém, não tem por enquanto perspectiva de conseguir mudar seu status legal.

Ela tem esperança de que toda a polêmica e os protestos contra a nova lei acabem surtindo efeito e a legislação não seja implementada.

Caso contrário, pretende deixar o país e voltar para o Brasil com a filha assim que a lei entrar em vigor, no dia 29 de julho.

"Se eu for presa, ele (o marido) também vai, porque a lei torna crime acobertar imigrantes ilegais", diz.

"Já preparei até um documento, dando poderes a uma amiga para cuidar da minha filha caso aconteça algo com a gente", afirma.

"Também já liguei para minha família, no Rio, avisando que preparem um lugar para eu ficar."

Chance

Rosiliane diz não defender que imigrantes cruzem ilegalmente a fronteira, como ela fez, mas gostaria que as pessoas que já estão nos Estados Unidos pudessem ter a possibilidade de regularizar sua situação e continuar vivendo no país.

"Não defendo que ninguém entre aqui ilegalmente", afirma. "Mas os Estados Unidos são um país de imigrantes. Por que não dar uma chance para quem já está aqui? São na grande maioria pessoas boas, que estão aqui para trabalhar."

A brasileira afirma que, se soubesse como seria atravessar o deserto para cruzar a fronteira do México com os Estados Unidos, não teria feito a travessia.

"Não vou dizer que me arrependi, não me arrependo de ter vindo. Aprendi muito, conheci outra cultura, conheci o homem da minha vida, tive minha filha", diz. "Mas não faria de novo."

Deserto

Para chegar aos Estados Unidos, ela deixou Volta Redonda, no Rio, voou de São Paulo à Cidade do México e de lá seguiu para a fronteira, onde um "coiote" (como são chamados aqueles atuam na região ajudando imigrantes ilegais a atravessar a fronteira) a guiou, a pé, até o lado americano.

Em seu grupo havia 24 pessoas. Ela diz que a travessia foi cercada de contratempos, incluindo um longo trecho em que o coiote se perdeu.

"De dia, o calor era insuportável. À noite, um frio intenso. Em um momento, cheguei a desmaiar", diz.

"Só depois descobri que várias pessoas morrem fazendo essa travessia."

Rosiliane diz que, na época em que veio para os Estados Unidos, sua intenção era juntar dinheiro para comprar uma casa no Brasil.

Ela deixou a carreira de técnica em enfermagem no Rio. Em Phoenix, trabalha fazendo limpeza em residências.

Desde o anúncio da nova lei de imigração, porém, parou de procurar novos trabalhos.

"Só aceito novos clientes se alguém me indica. Nas casas em que eu trabalho, todos já sabem que sou ilegal", afirma.

Ela diz que teve toda sua rotina alterada pelo temor da nova lei.

"Também não saio mais para fazer compras, só o essencial. As lojas me perderam", diz.

"Nós costumávamos viajar, ir a Flagstaff, Las Vegas. Agora acabou. Não quero arriscar. Fico só aqui, tenho medo de ir para longe."

Separação

O casal teme ser separado quando a nova lei entrar em vigor. Diaz afirma que não pensa em deixar os Estados Unidos no momento, onde tem dois filhos do primeiro casamento.

Mudar de Estado também não está nos planos do casal. Pelo menos 15 Estados americanos estudam atualmente adotar leis de imigração semelhantes à do Arizona.

"Não quero ir para outro Estado. Teria de passar por uma readaptação difícil, penso na minha filha. Não acho que mudar de Estado seja uma opção para mim", diz Rosiliane.

Ela acredita que poderia ser beneficiada pela reforma da imigração prometida pelo presidente Barack Obama, ainda emperrada no Congresso.

"Se a lei (do Arizona) entrar em vigor, vou embora para o Brasil com a minha filha", explica. "Mas se essa lei não sair, vou esperar a tal reforma imigratória."

Notícias relacionadas