O rei e a rebelde

Lucas Mendes em ilustração de Baptistão.

Na TV por assinatura, o rei é Larry King, 77 anos, mais de 40 mil entrevistas, de garçons a presidentes. Durante anos reinou no horário nobre da rede CNN, onde começou, há 25 anos. Judeu de classe média baixa, nunca entrou na faculdade, passou por várias cirurgias cardíacas, oito casamentos com sete mulheres. Politicamente, está no centrão.

Rachel Maddow é a rebelde, 37 anos. Apresentadora do programa com o próprio nome na MSNBC, também por assinatura, onde começou, há dois anos, no mesmo horário que Larry King. Rachel estudou políticas públicas em Stanford, na Califórnia, e fez doutorado em filosofia em Oxford, na Inglaterra. Rachel é a primeira gay/lésbica com um programa no horário nobre da televisão americana e vive com a parceira. Politicamente rebelde, à esquerda de Obama.

O rei das entrevistas neste momento está em queda livre nos índices de audiência. Caiu mais de 50% em um ano, e ficou abaixo de Rachel Maddow, que não sobe nem desce.

Tanto nos canais abertos como na TV por assinatura, dois universos completamente diferentes, o objetivo é conquistar a turma dos 18 aos 54. Na aberta, a fórmula é a dos reality shows, dramas e comédias. Na TV por assinatura, domina o plá das cabeças falantes e o time da FOX, da direita conservadora, dá uma surra na concorrência, inclusive na Rachel Maddow.

Em resumo: a Fox, a direita, subiu durante o governo Clinton e está por cima há vários anos. Agora estacionou, mas tem a fiel audiência conservadora que paga as contas.

A esquerda não despenca nem decola. Fica com a metade, ou menos, da audiência da Fox. A CNN, com seu plano de jornalismo neutro e informativo, é uma espécie ameaçada de extinção no horário nobre. Vive de terremotos no Haiti, quedas de aviões, atentados terroristas e outras breaking news, mas, no horário nobre, de 07h00 às 11h00 da noite, é o mesmo iogurte de baunilha a morango.

Faço o circuito e prefiro a CNN, com seu esforço de isenção, mas são todas comerciais e os índices são implacáveis. Sem os números e sem os dólares, Obama na cruz e liberais em fuga.

Como um presidente que herdou duas guerras, uma quase-depressão, dívida brutal e cofre vazio pode depender da isenção da CNN? Ele prometeu que ia caminhar sobre as águas. Onde estão os milagres?

O eleitor independente se sente perdido no centrão do Larry King. A história dele é a mais fascinante. Parou de estudar para sustentar a mãe viúva. Obstinado com a carreira de radialista, sem currículo, conseguiu furar o cerco, primeiro como disc-jóquei e depois entrevistando fregueses de um restaurante em Miami. Qualquer freguês. O primeiro entrevistado da carreira dele foi um dos garçons.

De lá, ele deu um salto para um programa de rádio das 00h00 às 05h30 da manhã. Nos primeiros noventa minutos, entrevistava um convidado. Nos noventa seguintes, os ouvintes entrevistavam o convidado, e no resto do programa os ouvintes falavam sobre o que quisessem. Saiu de lá para um contrato na CNN, em 85, que tinha cinco anos e era uma piada na televisão americana.

Pouco depois, a rede criou um sucesso, Crossfire. Debates de apresentadores conservadores contra liberais. Até que um jovem convidado genial chamado Jon Stewart deu uma bronca nos anfitriões e na CNN: "vocês estão destruindo o país”, disse ele, e denunciou a fórmula .

A rede ouviu, acabou com os debates e partiu para o centro. Até este ano, quando a audiência de Larry King perdeu para Rachel Maddow. Cabeças de apresentadores já rolaram.

O contrato de Larry King termina ano que vem mas, aos 77 anos, não tem nenhum plano de aposentar. Não tira férias. Quando deixam trabalha, aos domingos. Ia se divorciar pela oitava vez em março, mas suspendeu o processo. Pelo que vejo no ar, está forte e rijo e, pelo que dizem, vai se casar pela nona vez.

A crise de audiência ameaça as TVs abertas e as por assinatura, mas a questão mais importante não é a perda de dinheiro, embora seja real e preocupante. O drama maior é encontrar novas fórmulas: onde estamos e para onde vamos. "Ondequitoh prondequivoh", como filosofam em Minas. E o caminho na CNN aponta para o passado: Crossfire. Debates entre extremos.