Vuvuzela. VU-VU-ZE-LA!!!

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Toda Copa do Mundo tem sua bizarrice. Um goleiro colombiano, um garoto chamado Pelé, uma torcedora pelada toda pintada. Por aí.

Na cerimônia de abertura, a par da relativa celeuma causada pela nova bola – a que já podemos chamar de controvertida –, a Jabulani, eu punha minha mão no fogo que essa seria o grande ponto de discussão. Pois me queimei.

O futebol é uma caixinha de surpresas, conforme dizem os pobres de espírito. Quando vi, em pleno desfile, um dung beetle gigantesco empurrando uma Jabulani à sua altura, não tive por onde: vai ser essa aí. O dung beetle nada mais é do que o nosso conhecido coleóptero, o besouro-de-esterco. Ou escaravelho, conforme o chamam as elites rurais.

Curioso, fui buscar mais informações, procurar saber o porquê de tão inaudita escolha. Fiquei sabendo que, na África, 16 mil desses besourões são capazes de se deixar atrair (são uns fanáticos) por 1,5 kg de bosta de elefante.

Não deixa de ser uma escolha original para ilustrar, em tamanho gigante, em cerimônia diante das mais altas autoridades e de um mundo morto de curiosidade, a escolha da Jabulani imposta pela Fifa e a Adidas.

Enganei-me redondamente. Redondamente como as bolas número 5 dos anos mais antigos do passado, conforme cunhou, ainda ontem, em grande forma, o sempre esplêndido Carlos Heitor Cony, em crônica antológica para a Folha de SãoPaulo. A Jabulani era pinto (ainda estou nos anos mais antigos do passado) perto da vuvuzela. Essa, eu só conhecia de vista. Felizmente. Tomei conhecimento no primeiro fim de semana da Copa. Uau!

Eu disse, UAU! Caso não tenham me ouvido direito.

A Copa já tem um palhaço (o goleiro da seleção inglesa) e um vilão (a dita cuja, a vuvuzela). Pelo menos é o que pintou, é o que se ouviu. Mas se ouviu mesmo. Deu aural na cabeça.

Começaram as reclamações. Locutores, jogadores, torcedores presentes aos locais das contendas e mesmo em casa – aí, aqui, na Cochinchina. Um ruído assustador é o que provocam essas cornetas plásticas de 1,5 m de comprimento na boca de alguns milhares de torcedores sul-africanos.

De fazer besouro-de-esterco parar de farrear com bosta de elefante e cair duro na hora. Ou talvez não. O Continente Negro foi e sempre continuará a ser um mistério. Os técnicos não conseguem dar instruções aos jogadores, os locutores não conseguem se fazer ouvir e demonstram, aos urros, cada vez mais nervosismo.

Pior é que a zoeira não se limita aos estádios. Seu soar atordoante vai da manhã até altas horas da madrugada. Em qualquer lugar e circunstância. É alegria, alegria, afirmam seus praticantes, os vuvuzeleiros.

Como há sempre um cientista para complicar o que já é enredado, foi divulgado o estudo feito por acadêmicos da Flórida, nos Estados Unidos, aquele do 1 a 1, e de Pretória, aquela dos 2 a 0. Dizem ambas sumidades que as vuvuzelas picam em torno dos 144,2 decibéis, o que é bem acima dos 85 decibéis que, por lei, os operários de fábrica, em qualquer parte do mundo, necessitam para a devida proteção de sua audição e sanidade.

Em casa, no entanto, uma satisfação: tirar o som e ver o jogo tal como manda o figurino: mudinho da silva.

Vuvuzela. Vem da língua zulu. Quer dizer “barulho grande”. Os zulus sabem das coisas. Não poderiam prever é o que vem acontecendo: que um montão de gente no simpático país sul-africano está dando entrada no pronto socorro para cuidados imediatos nos lábios feridos de tanta entusiástica comemoração.

Sem falar nas primeiras ameaças de problemas pulmonares. Não vamos nos esquecer que, amanhã, as mesmas vuvuzelas poderão servir de corneta de audição, daquelas antigonas.

Aliás, outro item que desperta a curiosidade de muitos: será alegria ou guerra psicológica? O tempo dirá. Ou calará a boca, que seria o ideal. Esse zumbido de abelhas-gigantes (alguma relação com os dung beetles?) de filme barato de ficção científica ainda dará muito o que falar. Ou gritar. Ou muita gente calar. Mesmo essas pessoas tristíssimas, de paupérrima paisagem interior, que, numa tarde de sábado, assistiram em TV plasma e som surround, ao jogo Coreia do Norte contra Grécia.

Uma coisa a temível vuvuzela explica: por que a seleção da Árica do Sul é conhecida como Bafana Bafana, ou seja Brava Rapaziada. Eles não ouvem da primeira vez. Tem que se repetir o nome da seleção. Bem alto. Explica ainda o motivo pelo qual o sul-africanos andam pelas ruas, bares e casas repetindo uns para os outros, “Hem? O quê? Como disse?”.