Vuvu-patriotadas

Ivan Lessa em ilustração de Baptistão

Charlie Brooker é um jornalista inglês. Escreve sobre o que bem entender. No Guardian, que é o jornal que compro todo dia na esquina. Ele é bom. Tem jogo de cintura, gosta particularmente de televisão e é, quase que sozinho, responsável pelo sucesso da melhor série de televisão já feita pelos americanos: The Wire. Se bobeassem, teria passado despercebida. Percebam, caso passem. Ou revejam, se repassarem.

Na semana passada, como é inevitável para qualquer militante das hostes gutenberguianas neste ou qualquer outro país que esteja participando da Copa do Mundo, ponderou sobre os eventos que se desenrolam na África do Sul. A rigor – e rigor jornalístico – Brooker não falou da disputa em si mas sim de algo mais sutil, mais perigoso e menos comentado. Falou do chauvinismo desenfreado que baixa no mundo quando este bota as chuteiras. E não foi a campo nenhum. Não mencionou sequer este ou aquele outro jogo. Ficou pelos comerciais.

Cito o primeiro parágrafo de sua crônica:

“Eu gostaria de apreciar a Copa do Mundo, nem que fosse ao menos por um fugaz sentimento de fraternidade com o resto da Humanidade. Acontece que não dá de jeito nenhum. Um vasto número de meus concidadãos liga suas televisões para admirar jogadas gloriosas ou lamentáveis atuações. Tudo que eu consigo distinguir são 22 milionários arruinando um gramado.”

Há um mês, eu diria que Charlie Brooker botou a boca no trombone. Hoje, sabemos que foi numa vuvuzela que ele soprou. Taí, gostei da embocadura.

Se os torcedores insistem em ascender aos céus a se julgar pelas suas expressões, prossegue ele, melhor para eles. Quem sai perdendo é ele, o cronista. Brooker especifica que não é propriamente contra o jogo, embora acho que ele seja mais afiado em matéria de série americana de televisão do que do chamado esporte das multidões.

Brooker se irrita é com os comerciais. Ou, especificando, com a patriotada indevida por eles adotada e utilizada tão-somente para promover e vender um produto. E olha que Brooker digitou seu texto antes da estação comercial que transmite metade dos jogos, a ITV, tivesse levado ao ar um anúncio precisamente na hora de um gol (raro, diga-se de passagem) da Inglaterra no jogo contra os Estados Unidos.

Estou com Charlie Brooker e não abro, como fazem certos goleiros de seleções privilegiadas. Um comercial da cerveja Carlsberg, por exemplo, que anda rolando por aí adoidado como uma Jabulani. Passa-se todo num vestiário. Um suposto técnico discorre pateticamente sobre algo que insiste em chamar de “orgulho nacional”. Prossegue o indivíduo, que, por sinal, na ficção do comercial não tem o sotaque italiano do técnico da seleção inglesa, Fabio Capello.

Diz lá o locutor em off: "Sabem essa camisa que vocês estão usando? Não há um cidadão inglês que não daria tudo para estar vestindo-a".

A venda da Carlsberg prossegue mostrando em rápida sequência praticamente todos os “heróis” (as aspas são minhas) desportistas ingleses dos últimos 50 anos. Até campeão de jogo de dardos tem. Mais: há uma pausa de reverência em memória, ao que parece, a Sir Bobby Robson, antes de mostrar, no fundo de um túnel, a figura mais para a fantasmagórica do que etérea, que seria a intenção original, de Bobby Moore, orgulhoso e banhado por uma luz que se presume celestial. Isso aí. E, ao derramar a Carlsberg no copo, senhores torcedores, deixem um mínimo de colarinho.

Tá todo mundo na jogada, é claro. Coca-Cola, Nike, Pepsi, BP (vejam vocês quem) e os suspeitos de sempre. A Sony – ai, a Sony! – fatura a tecnologia japonesa com o nosso Kaká, que aqui preferem pronunciar Caca, como aquilo que um neném fez nas fraldas.

Nosso Krake (vamos engrossar logo a coisa), de frente para o arco adversário, encara as câmeras e vende, com aquela falta de convicção própria aos não-profissionais, as virtudes de um aparelho de TV em 3D. Pequeno detalhe: a Copa esta sendo transmitida nestas ilhas em 2D mesmo, pela BBC e a ITV. Em 3D, segundo Charlie Brooker, apenas em cerca de 50 cinemas.

Como está sendo vuvu-vendida a Copa no Brasil me deixa com minha Jabulani mental quicando de tão curiosa.